O IPCA de setembro subiu 0,82%, a maior alta para o mês desde 2021, e a inflação acumulada em 12 meses chegou a 4,58%, acima do teto da meta de 4,5%. O mercado já projeta 5% para o ano, e o Copom volta a se reunir em 3 e 4 de novembro. Nas manchetes, os culpados de sempre: a conta de luz, os alimentos, o clima. Mas a Escola Austríaca faz uma pergunta incômoda: e se estivermos olhando para o lugar errado?
Inflação não é preço subindo
Na linguagem do dia a dia, inflação é “os preços subindo”. Para Ludwig von Mises, essa definição confunde a causa com o efeito. A inflação, no sentido original da palavra, é o aumento da quantidade de dinheiro, do verbo inflar. A alta generalizada de preços é a consequência.
A lógica é simples. Se a quantidade de bens na economia fica mais ou menos igual e a quantidade de dinheiro aumenta, cada real passa a comprar menos. Não são o arroz, o aluguel e a gasolina que ficaram mais valiosos. É o seu dinheiro que vale menos. Por isso o título deste texto: não são os preços que sobem, é o dinheiro que perde valor.
Um choque pontual, como uma seca que encarece o feijão ou o fim de um desconto na conta de luz, muda preços específicos. Mas, sem dinheiro novo entrando na economia, a alta de um item tende a ser compensada pela queda de outros, porque o consumidor tem o mesmo dinheiro para gastar. O que faz todos os preços subirem, ano após ano, é a expansão da moeda e do crédito.
Por que essa diferença importa
Porque muda quem é o culpado. Se inflação é “preço subindo”, o vilão é o supermercado, o posto de gasolina, o empresário “ganancioso”. Se inflação é expansão da moeda, o responsável é quem controla a moeda e quem gasta além do que arrecada.
O Brasil conhece bem as consequências de culpar o mensageiro. Em 1986, o Plano Cruzado congelou os preços por decreto, e os “fiscais do Sarney” fechavam lojas que remarcavam etiquetas. O resultado foram prateleiras vazias, ágio, mercado paralelo e, poucos meses depois, a volta da inflação ainda mais forte. Congelar preço sem parar a fábrica de dinheiro é como quebrar o termômetro para baixar a febre.
Quem ganha e quem perde
A inflação não atinge todos ao mesmo tempo. O dinheiro novo entra na economia por algum lugar: pelo crédito dos bancos, pelo gasto do governo. Quem o recebe primeiro gasta antes de os preços subirem. Quem recebe por último, como o assalariado e o aposentado, encontra tudo mais caro. É o efeito Cantillon, que expliquei no texto De onde vem o dinheiro?
E há um ganhador silencioso: o maior devedor do país, que é o próprio governo. A inflação corrói o valor real da dívida pública e aumenta a arrecadação nominal sem que nenhuma lei seja votada. Por isso os economistas falam em imposto inflacionário: é o tributo mais injusto que existe, porque cai mais pesado sobre os mais pobres, que não têm como se proteger, e ninguém precisou aprová-lo.
O que a inflação faz com a sua empresa
Mises chamou atenção para um efeito que pouca gente percebe: a inflação engana o empresário. Quando os preços sobem, o lucro contábil parece maior do que realmente é. A empresa vende hoje, por um preço inflado, um estoque que comprou barato meses atrás. No papel, lucrou. Mas, quando for repor esse estoque, vai pagar muito mais caro.
Se o empresário não perceber isso, paga imposto sobre um lucro que não existe, distribui dividendos que na verdade são capital e, sem notar, vai descapitalizando o negócio. Mises chamou esse fenômeno de consumo de capital. Quem viveu os anos de hiperinflação, quando o IPCA chegou a mais de 2.400% em 1993, sabe que muitas empresas quebraram dando “lucro”.
Há ainda um efeito mais sutil. Os preços são a bússola do empresário: dizem o que está escasso e onde vale a pena investir. A inflação embaralha esses sinais. Fica difícil saber se o seu produto subiu porque a demanda cresceu ou só porque a moeda perdeu valor. Decisões ruins de investimento nascem dessa confusão.
E por que a inflação brasileira não cede?
O Banco Central mantém a Selic perto de 14% justamente para segurar o crédito e, com isso, a criação de moeda. Mas, enquanto o governo gastar mais do que arrecada, a pressão continua. Um Estado deficitário precisa se financiar, a dívida cresce, e o mercado passa a desconfiar de que, cedo ou tarde, a conta será paga com inflação. É essa desconfiança que obriga o BC a manter os juros nas alturas, como mostrei no texto sobre Selic e capital de giro.
Em outras palavras: os juros altos tratam o sintoma; o gasto público é a doença. O Plano Real funcionou, em 1994, porque combinou uma nova moeda com um esforço de ajuste nas contas públicas. A Argentina de Milei derrubou a inflação quando parou de imprimir dinheiro para pagar o governo, como analisei no texto sobre Milei e a Escola Austríaca.
Como o empresário pode se proteger
- Precifique pelo custo de reposição, não pelo custo histórico. O preço de venda precisa pagar o próximo estoque, não o último.
- Separe o lucro real do lucro nominal. Desconte a inflação antes de decidir quanto distribuir.
- Coloque cláusulas de reajuste nos contratos de prazo longo, atreladas a um índice.
- Não deixe o caixa parado. Dinheiro sem rendimento perde valor todos os dias.
- Cuidado com prazos longos sem correção para clientes: vender a 120 dias com inflação alta é dar desconto sem perceber.
O outro lado
É justo registrar que a maioria dos economistas e dos bancos centrais vê a inflação de forma mais ampla: choques de oferta, expectativas, preços de energia e câmbio também contam, e o regime de metas de inflação existe para administrar tudo isso. Na visão dominante, uma inflação baixa e estável, em torno de 3%, é até desejável. Os austríacos discordam: para eles, qualquer expansão contínua da moeda transfere riqueza de forma silenciosa e distorce as decisões econômicas.
A minha leitura
Inflação é, antes de tudo, uma escolha política. Nenhum supermercado, nenhuma seca e nenhuma guerra conseguem fazer todos os preços subirem por anos seguidos. Só a expansão da moeda faz isso, e ela é decidida em Brasília, não no balcão da padaria. Enquanto o país tratar a inflação como culpa da ganância alheia, e não do gasto público, vamos continuar pagando juros de dois dígitos para controlar um problema que nasce dentro do próprio governo.
Em resumo
- Para a Escola Austríaca, inflação é o aumento da quantidade de dinheiro; a alta dos preços é a consequência.
- Quem recebe o dinheiro novo primeiro ganha; quem recebe por último, como o assalariado, perde.
- A inflação funciona como um imposto silencioso e beneficia o maior devedor, o governo.
- Nas empresas, ela infla o lucro contábil e pode consumir o capital sem que o empresário perceba.
- Juros altos tratam o sintoma; a cura passa pelo controle do gasto público.
Texto de análise e opinião do autor. Dados do IPCA de setembro de 2026 divulgados pelo IBGE em 9 de outubro.
Para saber mais
- IPCA sobe mais do que o esperado em setembro e fica acima da meta (Jornal do Comércio)
- Focus: mercado eleva previsão da inflação para 5,01% em 2026 (Agência Brasil)
- Ludwig von Mises, A Teoria da Moeda e do Crédito (1912)
- Instituto Mises Brasil
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