O empresário segundo a Escola Austríaca: por que Mises colocava você no centro da economia

No Brasil, o empresário costuma aparecer em dois papéis: o de explorador, nas aulas de história, e o de sonegador, no discurso político. Quase nunca aparece como o que de fato é: a pessoa que arrisca o próprio patrimônio para produzir algo que outras pessoas querem comprar. A Escola Austríaca pensa diferente. Para Mises e seus herdeiros, o empresário não é um personagem secundário da economia. Ele é o centro dela.

Mises: agir sem saber o futuro

Para Ludwig von Mises, toda ação humana acontece sob incerteza. Ninguém sabe o que vai acontecer amanhã: se o cliente vai comprar, se o preço do insumo vai subir, se o dólar vai disparar. O empresário é justamente quem aceita essa incerteza e decide mesmo assim. Ele compra matéria-prima hoje, contrata hoje, investe hoje, apostando que, lá na frente, alguém vai querer o que ele produziu.

É por isso que, na visão austríaca, o lucro não é um roubo, e sim a recompensa por ter acertado essa aposta: por ter usado recursos escassos para atender melhor o consumidor. E o prejuízo não é uma injustiça: é o sinal de que aqueles recursos estavam sendo mal usados e precisam ir para outro lugar. Lucro e prejuízo funcionam como uma bússola que orienta toda a economia.

Mises tinha uma frase forte sobre isso: no mercado, quem manda não é o empresário, é o consumidor. O empresário só prospera se servir bem a quem compra. Se deixar de servir, perde para o concorrente. A isso ele chamou de soberania do consumidor.

Kirzner: enxergar o que ninguém viu

Israel Kirzner, aluno de Mises, levou a ideia adiante. Para ele, a qualidade essencial do empresário é o estado de alerta: a capacidade de perceber uma oportunidade que estava ali, à vista de todos, mas que ninguém tinha notado.

O exemplo clássico é simples. Se um produto é vendido a R$ 10 numa cidade e a R$ 15 na cidade vizinha, alguém atento vai comprar na primeira e vender na segunda. Ao fazer isso, ganha dinheiro, mas também faz algo mais importante: aproxima os preços, leva o produto para onde ele é mais valorizado e corrige um erro do mercado. Ninguém mandou. Ninguém planejou. Foi a ação de alguém atento que coordenou a economia.

Agora troque o produto por qualquer negócio real: a padaria que percebeu que o bairro queria café da manhã para levar, a pequena indústria que viu um fornecedor estrangeiro caro demais e passou a fabricar a peça aqui, a empresa de serviços que encontrou um jeito mais rápido de atender. Cada uma dessas decisões é o estado de alerta de Kirzner em ação.

Schumpeter: a destruição criativa

Joseph Schumpeter, que estudou em Viena na mesma tradição, mas seguiu caminho próprio, olhou para o empresário de outro ângulo: o do inovador que muda as regras do jogo. Para ele, o capitalismo avança por meio da destruição criativa: o novo produto, a nova tecnologia, o novo modelo de negócio tornam obsoleto o antigo. A máquina de escrever deu lugar ao computador; o táxi passou a dividir a rua com os aplicativos.

Kirzner e Schumpeter se completam. Um mostra o empresário que corrige o mercado; o outro, o que o reinventa. Os dois concordam no essencial: sem empresário, a economia para.

Por que nenhum governo substitui o empresário

Aqui entra o argumento mais poderoso da Escola Austríaca. Hayek mostrou que o conhecimento necessário para tocar uma economia está espalhado entre milhões de pessoas: o dono do restaurante sabe o que seus clientes pedem, o fazendeiro sabe a hora certa de plantar, o comerciante sabe qual produto encalha. Nenhum ministério, por mais técnico que seja, consegue reunir esse conhecimento.

O empresário é quem transforma esse conhecimento local em decisão. Por isso, quando o governo tenta escolher setores vencedores, conceder crédito subsidiado a empresas amigas ou definir preços, ele erra com frequência: está decidindo sem a informação que só quem está na ponta tem. E, diferentemente do empresário, quando o governo erra, não quebra. Quem paga é o contribuinte.

E o Brasil, como trata quem empreende?

Mal. O último relatório Doing Business do Banco Mundial, de 2020, estimava que uma empresa média brasileira gastava cerca de 1.500 horas por ano só para calcular e pagar impostos, uma das piores marcas do mundo. Some a isso uma carga tributária entre as mais altas dos países emergentes, juros que estão entre os maiores do planeta, uma legislação trabalhista que transforma cada contratação em risco e uma insegurança jurídica que muda as regras no meio do jogo.

Só em 2026, como mostrei nos textos sobre taxação de dividendos, regimes tributários e split payment, o empresário viu o lucro distribuído passar a ser taxado, o Lucro Presumido ficar mais caro e a perspectiva de perder parte do capital de giro com a reforma tributária. É um país que pede ao empresário que gere emprego e renda e, ao mesmo tempo, coloca uma pedra a cada passo.

O que vejo do outro lado da mesa

No meu trabalho, convivo todos os dias com empresários de verdade. Não os das manchetes, mas os que acordam cedo para abrir a loja, que dão o próprio imóvel como garantia para comprar uma máquina, que passam noites fazendo conta para fechar a folha do mês. A maioria não leu Mises ou Kirzner, mas pratica o que eles descreveram: percebe uma oportunidade, assume o risco e organiza tudo para atender o cliente.

O que mais me impressiona não é o empresário que acerta, mas o que erra e recomeça. O prejuízo dói, mas ensina. E, quando o ambiente permite, essas pessoas encontram um jeito. O problema do Brasil nunca foi falta de espírito empreendedor. É excesso de obstáculos no caminho dele.

A lição austríaca

Se o empresário é o centro da economia, a política econômica certa não é a que escolhe vencedores, distribui subsídios ou dita preços. É a que tira as pedras do caminho: impostos mais baixos e simples, regras estáveis, contratos respeitados, crédito com juros que reflitam a poupança real, e não o descontrole das contas públicas. O resto o empresário faz sozinho, e faz melhor.

Se você é empresário e está lendo este texto: o seu lucro não é motivo de vergonha. Ele é a prova de que você está servindo bem alguém. E o seu esforço é o que move a economia de verdade, muito mais do que qualquer plano de governo.

Em resumo

  1. Para Mises, o empresário é quem age sob incerteza, e o lucro é a recompensa por servir bem o consumidor.
  2. Para Kirzner, o essencial é o estado de alerta: perceber oportunidades que ninguém viu e, assim, coordenar o mercado.
  3. Para Schumpeter, o empresário inovador move a economia pela destruição criativa.
  4. Nenhum governo substitui o empresário, porque o conhecimento necessário está espalhado e só quem está na ponta o tem.
  5. O Brasil não tem falta de empreendedores, tem excesso de obstáculos para eles.

Leia também: O que é a Escola Austríaca? e Escola Austríaca x Escola de Chicago.

Texto de análise e opinião do autor.

Para saber mais

  • Ludwig von Mises, Ação Humana (1949)
  • Israel Kirzner, Competição e Atividade Empresarial (1973)
  • Joseph Schumpeter, Capitalismo, Socialismo e Democracia (1942)
  • Friedrich Hayek, “O uso do conhecimento na sociedade” (1945)
  • Instituto Mises Brasil

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