Para quem está de fora, os dois são “liberais” e pronto. Ludwig von Mises e Milton Friedman defenderam o livre mercado, a propriedade privada e o comércio livre, e combateram o socialismo a vida inteira. Mas entre a Escola Austríaca, de Mises e Hayek, e a Escola de Chicago, de Friedman, há diferenças profundas, e elas explicam por que dois economistas liberais podem dar respostas opostas para a mesma crise. Vamos a elas.
Quem é quem
- Escola Austríaca: nasceu em Viena, em 1871, com Carl Menger. Seus grandes nomes são Ludwig von Mises, Friedrich Hayek e, mais tarde, Murray Rothbard e Israel Kirzner. Expliquei suas ideias centrais no texto O que é a Escola Austríaca?
- Escola de Chicago: formou-se na Universidade de Chicago a partir dos anos 1930 e 1940. O nome mais famoso é Milton Friedman, Prêmio Nobel de 1976, mas a escola reuniu também George Stigler e Gary Becker, entre outros.
No que concordam
- O mercado livre aloca recursos melhor do que o governo.
- O socialismo e o planejamento central fracassam.
- Controle de preços, protecionismo e excesso de regulação fazem mal à economia.
- A inflação é causada pelo excesso de moeda. A frase é de Friedman, “a inflação é sempre e em toda parte um fenômeno monetário”, mas qualquer austríaco a assinaria.
As 5 grandes diferenças
1. O método: lógica ou estatística?
Esta é a raiz de todas as outras. Para os austríacos, a economia parte de um fato que não precisa ser testado: as pessoas agem com propósito. Dessa premissa, Mises deduz a teoria por lógica, num método que chamou de praxeologia. Por isso os austríacos desconfiam de modelos matemáticos e de previsões estatísticas: a economia é feita de escolhas humanas, que não se repetem como num laboratório.
Para Chicago, uma teoria econômica vale pelo que consegue prever. Friedman defendeu, num ensaio famoso de 1953, que as hipóteses de um modelo podem até ser irrealistas, desde que as previsões funcionem. Daí o uso intenso de matemática, dados e econometria. Se a Escola Austríaca é filosofia aplicada à economia, Chicago é economia tratada como ciência experimental.
2. O banco central: reformar ou abolir?
Friedman não queria acabar com o banco central. Queria amarrá-lo a uma regra: fazer a quantidade de moeda crescer a um ritmo fixo e previsível todo ano, sem discricionariedade. É o monetarismo. Ele chegou a brincar que o Federal Reserve poderia ser substituído por um computador.
Os austríacos vão muito além. Para eles, o problema não é o banco central errar a dose, mas existir um monopólio estatal da moeda. Mises defendia o padrão-ouro; Hayek, já idoso, propôs a concorrência entre moedas privadas no livro Desestatização do Dinheiro, de 1976; Rothbard queria o fim do banco central e das reservas fracionárias.
3. As crises: culpa da farra ou da ressaca?
Aqui as duas escolas dão respostas quase opostas para a mesma pergunta: o que causou a Grande Depressão de 1929?
- Para os austríacos, a culpa foi do crédito barato dos anos 1920. O Fed manteve juros artificialmente baixos, alimentou investimentos insustentáveis, e a crise foi a correção inevitável desses erros. O remédio é deixar o ajuste acontecer.
- Para Friedman, que estudou o tema com Anna Schwartz no clássico Uma História Monetária dos Estados Unidos, de 1963, a culpa foi do Fed por ter deixado a quantidade de dinheiro despencar depois de 1929. O remédio seria o contrário: injetar liquidez para evitar a quebradeira.
A diferença não é acadêmica. Na crise de 2008, o Fed era comandado por Ben Bernanke, estudioso da Depressão e admirador do trabalho de Friedman, que despejou trilhões de dólares no sistema. Os austríacos criticaram duramente: para eles, salvar bancos e inundar o mercado de dinheiro só prepara a próxima bolha.
4. A inflação: o nível ou a distorção?
Chicago olha para o nível geral de preços: se a média sobe, há inflação. Os austríacos olham para o caminho do dinheiro novo. Quem recebe primeiro, como bancos, governo e grandes empresas, gasta antes de os preços subirem; quem recebe por último, como o assalariado, paga a conta. É o efeito Cantillon, que expliquei no texto De onde vem o dinheiro?. Para um austríaco, mesmo uma inflação “baixa e estável” distorce preços relativos e transfere riqueza.
5. O papel do Estado: menor ou mínimo?
Friedman era pragmático. Propôs o imposto de renda negativo, uma espécie de renda mínima para os mais pobres, e os vouchers escolares, em que o governo financia a educação, mas a família escolhe a escola. Para ele, se o Estado vai gastar, que gaste de forma mais eficiente e com mais liberdade de escolha.
Os austríacos mais radicais, como Rothbard, viam nessas propostas apenas um Estado reformado, e não reduzido. Conta-se que, numa reunião da Sociedade Mont Pèlerin em 1947, Mises se irritou com uma discussão sobre redistribuição de renda e chamou os colegas, entre eles Friedman, de “um bando de socialistas”. O episódio, contado pelo próprio Friedman com bom humor, resume a diferença de temperamento entre as duas escolas.
Quadro-resumo
| Escola Austríaca | Escola de Chicago | |
|---|---|---|
| Nomes | Menger, Mises, Hayek, Rothbard | Friedman, Stigler, Becker |
| Método | Lógica a partir da ação humana | Matemática, dados e previsão |
| Banco central | Abolir ou criar concorrência de moedas | Manter, com regra fixa |
| Causa das crises | Crédito barato no boom | Falta de moeda na queda |
| Remédio na crise | Deixar o ajuste acontecer | Injetar liquidez |
| Inflação | Distorce preços e transfere riqueza | Problema do nível de preços |
| Estado | Mínimo, ou nenhum | Menor e mais eficiente |
E no mundo real?
Na política, Chicago teve muito mais influência. Os “Chicago Boys”, economistas chilenos formados lá, conduziram a abertura da economia do Chile a partir dos anos 1970, num período marcado também pela ditadura militar, o que torna esse legado controverso até hoje. As ideias monetaristas inspiraram os governos de Thatcher e Reagan. No Brasil, Paulo Guedes, ministro da Economia entre 2019 e 2022, fez doutorado em Chicago.
A Escola Austríaca ficou mais tempo nas universidades e nos institutos, até ganhar um presidente que se declara seu seguidor: Javier Milei. Mesmo ele, porém, mistura as duas tradições, e não por acaso um de seus cães se chama Milton. Analisei esse caso no texto Milei e a Escola Austríaca.
A minha leitura
Sou austríaco, mas não tenho problema em reconhecer o mérito de Chicago. Friedman foi talvez o maior comunicador que o liberalismo já teve, e sua defesa de regras claras para a política monetária é muito melhor do que um banco central que muda de ideia conforme o vento político.
Ainda assim, acho que os austríacos enxergam algo que Chicago não vê: o estrago começa no boom, não na queda. No dia a dia com empresas, vejo isso o tempo todo. Quem quebra quando os juros sobem quase sempre é quem se expandiu com crédito barato, acreditando que o dinheiro fácil duraria para sempre. Injetar mais dinheiro na crise pode até aliviar a dor, mas mantém vivos os erros que causaram a doença. Para o empresário, a lição austríaca é prática: desconfie dos períodos de crédito farto, porque eles cobram a conta depois.
Em resumo
- Austríacos e Chicago defendem o livre mercado e combatem o socialismo.
- Divergem no método: lógica a partir da ação humana contra matemática e dados.
- Chicago quer um banco central com regras; os austríacos querem o fim do monopólio estatal da moeda.
- Nas crises, Chicago injeta dinheiro; os austríacos culpam o crédito barato anterior e defendem deixar o ajuste acontecer.
- Chicago influenciou muito mais a política; os austríacos ganharam força recente com Milei.
Leia também: Liberalismo, keynesianismo e neoliberalismo: qual a diferença?
Texto de análise e opinião do autor, com caráter educativo.
Para saber mais
- Ludwig von Mises, Ação Humana (1949)
- Milton Friedman, Capitalismo e Liberdade (1962)
- Milton Friedman e Anna Schwartz, Uma História Monetária dos Estados Unidos (1963)
- Friedrich Hayek, Desestatização do Dinheiro (1976)
- Instituto Mises Brasil
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