Milei e a Escola Austríaca: o que deu certo, o que não deu e o que a Argentina ensina ao Brasil

Javier Milei é o primeiro presidente da história a se declarar abertamente seguidor da Escola Austríaca. Cita Mises, Hayek e Rothbard em discursos, batizou seus cães com nomes de economistas liberais e chegou à Casa Rosada prometendo acabar com a inflação usando uma motosserra. Quase três anos depois, a Argentina virou o maior teste prático das ideias austríacas em décadas. O que funcionou? O que não funcionou? E o que o Brasil, que escolhe seu presidente no dia 25, pode aprender com isso?

O ponto de partida: um país em colapso

Quando Milei assumiu, em dezembro de 2023, a Argentina tinha inflação acima de 200% ao ano, o Banco Central imprimia dinheiro para cobrir o rombo do Tesouro, havia uma dezena de cotações diferentes para o dólar e 41,7% da população estava abaixo da linha da pobreza. Era o retrato do que os austríacos descrevem há um século: um Estado que gasta mais do que arrecada e paga a conta destruindo a moeda.

O que deu certo

1. As contas públicas. Em 2024, a Argentina teve o primeiro superávit financeiro anual desde 2010, ou seja, sobrou dinheiro mesmo depois de pagar os juros da dívida. O resultado se repetiu em 2025 e segue em 2026. O ajuste veio principalmente do corte de gastos, não de aumento de impostos: o gasto primário do governo deve cair para cerca de 12,4% do PIB em 2026, mais de cinco pontos abaixo de 2023.

2. O fim da impressão de dinheiro. Com o Tesouro no azul, o Banco Central parou de financiar o governo. É a lição austríaca mais básica: inflação é um fenômeno monetário, e ela só cai de verdade quando se fecha a torneira que cria moeda para pagar o gasto público.

3. A inflação despencou. Dos mais de 200% ao ano, a inflação em 12 meses caiu para algo perto de 34% até agosto de 2026. Ainda é alta para qualquer padrão, mas é outro país.

4. A pobreza caiu, depois de piorar. O choque inicial levou a pobreza a 52,9% no primeiro semestre de 2024. Com a queda da inflação, ela recuou para 31,6% um ano depois e chegou a cerca de 28% no fim de 2025, abaixo do nível que Milei herdou.

5. O setor externo. As exportações devem bater recorde em 2026, perto de US$ 102 bilhões, puxadas por petróleo e gás de Vaca Muerta, mineração e agronegócio. A Argentina voltou a ter acordo com o FMI e o Banco Central voltou a comprar dólares.

O que ainda não deu certo

A honestidade intelectual, que é um valor caro à própria Escola Austríaca, exige olhar o outro lado da conta.

  • A queda da inflação travou. Depois de cair rápido, a inflação mensal se estabilizou perto de 2%. Para o fim de 2026, o mercado projeta algo em torno de 30% no ano. A última milha da desinflação está sendo a mais difícil.
  • A atividade esfriou. O PIB caiu 0,6% no segundo trimestre de 2026, a primeira contração em dois anos, e há economistas falando em recessão técnica. O governo cortou sua previsão de crescimento para o ano de 5% para 3%.
  • Emprego e empresas. Desde o fim de 2023, cerca de 31 mil empresas fecharam e o país perdeu perto de 245 mil empregos formais no setor privado, segundo levantamentos de centros de estudo argentinos. Indústria, comércio e construção são os mais afetados.
  • A pobreza voltou a subir. No primeiro semestre de 2026, ela subiu para 32,3%, porque os preços da cesta básica, puxados pelos alimentos, cresceram mais rápido do que a renda das famílias.
  • O apoio político caiu. Na pesquisa AtlasIntel de setembro, 38% aprovam o governo e 58% desaprovam.

Milei é mesmo um austríaco?

No discurso, sem dúvida. Na prática, só em parte. Um austríaco de linha rothbardiana, como Milei se define, teria fechado o Banco Central, como ele prometeu na campanha, e deixado o câmbio totalmente livre. Nada disso aconteceu: o Banco Central continua de pé, o governo administra o câmbio com bandas e intervenções para segurar o peso, e parte dos controles cambiais sobre empresas permanece.

Para um austríaco, segurar o preço do dólar também é controle de preços. E controle de preços cobra a conta: um peso artificialmente forte ajuda a derrubar a inflação no curto prazo, mas tira competitividade da indústria local, que passa a disputar mercado com importados mais baratos. Parte da dor do setor industrial argentino vem daí.

O diagnóstico de Milei é austríaco. A execução é a de um governo real, com Congresso, eleições e restrições políticas. E é justamente essa distância entre a teoria e a política que torna o caso argentino tão instrutivo.

O que a Argentina ensina ao Brasil

  1. Ajuste fiscal pelo corte de gastos é possível. Durante anos se disse no Brasil que o gasto público é “incomprimível”. A Argentina mostrou que um governo com vontade política consegue cortar despesas de forma relevante e zerar o déficit em poucos meses. O Brasil, que hoje ajusta as contas aumentando impostos, como mostrei nos textos sobre taxação de dividendos e reforma tributária, escolheu o caminho oposto.
  2. A inflação responde à disciplina fiscal. Quando o governo para de gastar o que não tem, a moeda para de ser destruída. Os juros altos que o Brasil paga hoje, com a Selic em 13,75%, são em boa parte o preço da desconfiança sobre as contas públicas.
  3. Quanto mais tarde, mais doloroso. A Argentina precisou de um choque porque chegou à beira da hiperinflação. O Brasil está longe disso e ainda pode fazer um ajuste gradual, com menos sofrimento. Esperar só encarece a conta.
  4. Abrir a economia exige preparar quem produz. A abertura e o câmbio valorizado expuseram a indústria argentina de uma vez. Reduzir impostos e burocracia antes, ou junto, dá à empresa nacional condição de competir.
  5. Reforma precisa de apoio político e de resultado visível. A economia pode melhorar nos indicadores e o eleitor ainda não sentir no bolso. Sem emprego e renda, o apoio às reformas evapora, e as reformas correm o risco de ser revertidas.

A minha leitura

O caso argentino confirma o centro da tese austríaca: não existe almoço grátis. Décadas de gasto público financiado com emissão de moeda deixaram um país rico em recursos com metade da população na pobreza. A correção, como Mises e Hayek previam, foi dolorosa, mas foi ela que tirou a Argentina da beira do abismo. As contas no azul e a inflação em uma fração do que era são conquistas que nenhum governo argentino entregou nas últimas décadas.

Ao mesmo tempo, o próprio Hayek diria que nenhum governo tem o conhecimento para calibrar tudo de cima, e o câmbio administrado de Milei é um exemplo disso. A lição mais valiosa talvez seja esta: o ajuste fiscal é a parte mais difícil politicamente, mas não basta. Sem liberdade de preços, menos impostos sobre quem produz e um ambiente em que as empresas consigam crescer e contratar, o alívio demora a chegar à vida das pessoas.

Para o Brasil, que paga um dos juros reais mais altos do mundo e discute aumentar impostos em vez de cortar gastos, a Argentina é um espelho. Mostra o que acontece quando se adia demais o ajuste, e mostra que ele é possível.

Em resumo

  1. Milei transformou um déficit crônico em superávit, cortando gastos, e parou de financiar o governo com emissão de moeda.
  2. A inflação caiu de mais de 200% para cerca de 34% ao ano, e a pobreza recuou até o fim de 2025.
  3. Em 2026, a desinflação travou, a atividade esfriou, empregos foram perdidos e a pobreza voltou a subir.
  4. Na prática, Milei é menos austríaco do que no discurso: manteve o Banco Central e administra o câmbio.
  5. A lição para o Brasil: ajuste pelo gasto é possível, adiar sai caro, e reforma sem crescimento perde apoio.

Texto de análise e opinião. Dados de fontes oficiais argentinas (INDEC), do FMI e de centros de pesquisa, conforme os links abaixo; os números da economia argentina mudam rapidamente.

Para saber mais

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