“O Brasil vai virar Argentina.” A frase voltou ao centro da campanha. Na reta final do segundo turno, a campanha de Lula passou a comparar as propostas econômicas de Flávio Bolsonaro com as medidas de Javier Milei e a alertar para riscos ao Bolsa Família, ao Pé-de-Meia e ao Mais Médicos. Flávio responde que é mentira: “Não existe isso de acabar com o Bolsa Família”.
Como economista, a pergunta que me interessa não é quem ganha o debate na televisão. É outra: a comparação faz sentido? E, se o Brasil virar Argentina, de qual Argentina estamos falando?
Qual Argentina?
Durante décadas, “virar Argentina” foi uma expressão usada no Brasil com outro sentido: o de um país que gastou mais do que podia, imprimiu dinheiro para pagar a conta e terminou com inflação descontrolada, calote e metade da população na pobreza. Essa é a Argentina que Milei herdou em dezembro de 2023: inflação acima de 200% ao ano, Banco Central financiando o Tesouro, uma dezena de cotações para o dólar e 41,7% da população abaixo da linha da pobreza.
Agora a expressão mudou de lado. “Virar Argentina” passou a significar o remédio, e não a doença: o corte de gastos, a motosserra, o ajuste duro. É uma inversão curiosa, porque o choque argentino só foi necessário por causa de tudo o que veio antes. Expliquei esse processo em detalhe no texto Milei e a Escola Austríaca.
O Brasil de hoje não é a Argentina de 2023
Para virar a Argentina de Milei, o Brasil precisaria primeiro estar na situação que exigiu Milei. E não está:
| Argentina (dez/2023) | Brasil (hoje) | |
|---|---|---|
| Inflação em 12 meses | acima de 200% | 4,58% |
| Banco Central | imprimia dinheiro para o Tesouro | autônomo, não financia o governo |
| Câmbio | dezenas de cotações e controles | câmbio flutuante, uma cotação |
| Reservas internacionais | praticamente esgotadas | mais de US$ 300 bilhões |
| Pobreza | 41,7% da população | bem abaixo disso |
Por isso, a comparação é exagerada dos dois lados. O Brasil não está à beira de uma hiperinflação que exija um choque, e nenhum candidato precisa de uma motosserra argentina para arrumar as contas. O que o Brasil tem é um problema mais lento e menos visível: um gasto público que cresce mais do que a economia, uma dívida bruta perto de 80% do PIB e juros reais entre os mais altos do mundo para financiá-la.
O que Milei fez com os programas sociais
Aqui está o dado que quase ninguém conta no debate brasileiro. Milei cortou muito: subsídios de energia e transporte, obras públicas, repasses às províncias, salários do funcionalismo. Mas o principal programa de transferência de renda do país, a Asignación Universal por Hijo (AUH), o equivalente argentino do Bolsa Família, não foi cortado. Foi aumentado.
Segundo o instituto argentino IARAF, o poder de compra da AUH terminou 2025 cerca de 67% acima do de 2023, o grupo que mais ganhou renda real no período. A lógica foi concentrar a ajuda em quem mais precisa e cortar o resto.
Seria desonesto parar aqui, porém. O ajuste também teve perdedores claros: os servidores públicos nacionais perderam cerca de um terço do poder de compra, os aposentados que recebem o mínimo perderam renda real, e a pobreza disparou para 52,9% no primeiro semestre de 2024, antes de recuar. No primeiro semestre de 2026, voltou a subir, para 32,3%. Quem diz que o ajuste argentino não doeu está mentindo. Quem diz que ele acabou com a ajuda aos mais pobres também.
O que Flávio propõe, e o que se diz sobre isso
- Bolsa Família: Flávio afirma que vai manter o programa “para quem precisa” e chama de mentira a acusação de que acabaria com ele.
- Gastos: a coordenação econômica da campanha fala em reduzir ministérios e cortar gastos. A Folha de S.Paulo noticiou que a equipe estudou medidas que poderiam economizar até R$ 250 bilhões, incluindo mudanças na correção de aposentadorias e do BPC e nos pisos de saúde e educação. A campanha nega que sejam propostas oficiais.
- Impostos: o plano fala em revisar a reforma tributária e reduzir o IVA, que considera projetado num dos patamares mais altos do mundo, como mostrei no texto sobre quem criou e quem votou a reforma tributária.
E há um detalhe institucional importante: desde 2021, a Constituição garante a todo brasileiro em situação de vulnerabilidade o direito a uma renda básica familiar. Acabar com o Bolsa Família não é uma decisão que um presidente toma sozinho. Programas como o Pé-de-Meia e o Mais Médicos, por outro lado, dependem do orçamento de cada ano, e é justo perguntar a qualquer candidato como pretende financiá-los. O próprio Pé-de-Meia já foi questionado pelo Tribunal de Contas da União por ter sido pago com recursos fora do orçamento.
Os argumentos dos dois lados
Quem usa a comparação com a Argentina argumenta que cortes de gastos sempre recaem sobre os mais pobres, que programas como o Pé-de-Meia mantêm jovens na escola e o Mais Médicos leva atendimento a cidades sem médico, e que a experiência argentina mostra que o ajuste traz recessão, desemprego e alta da pobreza no curto prazo. Para esse lado, o gasto social é investimento, não desperdício.
Quem rejeita a comparação responde que o Brasil não precisa de choque, só de controle; que o candidato se comprometeu publicamente com o Bolsa Família; e que o maior risco para os programas sociais não é um corte planejado, e sim a crise fiscal que vem quando o gasto cresce sem controle e o dinheiro acaba. Foi isso que aconteceu com o Fies em 2015, como contei no texto Keynes, o vilão da economia liberal.
A minha leitura, com a lente austríaca
O verdadeiro risco de “virar Argentina” não está num candidato. Está num caminho. A Argentina não quebrou por causa de um presidente liberal; ela chegou ao fundo do poço depois de décadas de governos que gastaram mais do que arrecadavam, cobriram a diferença com dívida e emissão de moeda e prometeram benefícios que a economia não conseguia pagar. Milei foi a consequência, não a causa.
Para a Escola Austríaca, não existe almoço grátis. Todo programa social tem um custo, e ele é pago por alguém: pelo contribuinte de hoje, pelo contribuinte de amanhã, por meio da dívida, ou por todos, por meio da inflação. A pergunta honesta não é “quem vai manter o Bolsa Família?”. É “quem vai garantir que haja dinheiro para pagá-lo daqui a dez anos?”. Um programa social sustentável precisa de uma economia que cresça, de empresas que contratem e de contas públicas que fechem.
O Brasil ainda tem a vantagem de poder escolher um ajuste gradual, sem dor de choque. A lição da Argentina é que, quanto mais se adia, mais caro e mais doloroso ele fica. Quem realmente quer proteger os mais pobres deveria ser o primeiro a cuidar das contas públicas.
Em resumo
- O Brasil de hoje não está na situação da Argentina de 2023: tem inflação de um dígito, Banco Central autônomo, câmbio flutuante e reservas robustas.
- Milei cortou muitos gastos, mas aumentou o principal programa de renda dos mais pobres; o ajuste, porém, teve perdedores e elevou a pobreza no curto prazo.
- Flávio diz que vai manter o Bolsa Família, que tem proteção constitucional; Pé-de-Meia e Mais Médicos dependem do orçamento de cada ano.
- O risco real de “virar Argentina” é o caminho do gasto sem controle, financiado por dívida e inflação.
- Programa social sustentável depende de contas públicas em ordem e de uma economia que cresça.
Leia também: Lula x Flávio: o que cada proposta significa para quem empreende.
Texto de análise e opinião do autor. Dados da Argentina do INDEC e do IARAF; declarações dos candidatos conforme Agência Brasil, IstoÉ Dinheiro e Folha de S.Paulo. Os números da economia argentina mudam rapidamente.
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