John Maynard Keynes, o vilão da economia liberal: como a crise de 2014 me levou à Escola Austríaca

Este texto é diferente dos outros. Não começa com dados do Banco Central nem com uma lei nova. Começa com uma história: a minha. É a história de como um estudante de Economia que trabalhava de dia e estudava à noite foi apresentado a John Maynard Keynes como o maior economista do século 20 e terminou do outro lado, defendendo a Escola Austríaca.

De Bangu para Campo Grande

Sou cria de Bangu, no Rio de Janeiro. Perdi meu pai aos 16 anos. Com o dinheiro do seguro, minha mãe, que passou a ser a única renda da casa, comprou uma casa em Campo Grande, e foi ali que a gente recomeçou a vida.

Meus pais não tiveram condições de pagar uma boa escola para mim. Trabalhei em muitas áreas antes de me fixar no banco, onde entrei em 2011. Mas nunca perdi o sonho de estudar. Fiz dele um objetivo de vida. Trabalhava durante o dia e, à noite, ia para a faculdade de Ciências Econômicas, com a mensalidade paga do meu próprio bolso.

2014: Adam Smith, a crise e uma pergunta

O ano era 2014. Eu estava no quinto período quando comecei a ler A Riqueza das Nações, de Adam Smith. Devorei o livro em poucas semanas. Foi ali que conheci a ideia da mão invisível: a de que milhões de pessoas, cada uma cuidando da própria vida, produzem uma ordem e uma prosperidade que nenhum governo conseguiria planejar.

Enquanto eu lia Smith, o Brasil afundava. A economia já dava sinais claros de crise, as contas públicas fechariam o ano no vermelho, e o país estava no meio de uma eleição presidencial acirrada, que terminou com a reeleição de Dilma Rousseff e a derrota de Aécio Neves. Para muita gente, inclusive para mim, aquela eleição era a chance de mudar de rumo.

Comecei a me fazer uma pergunta simples: qual o sentido de um governo gastar tanto no meio de uma crise? Foi nessa época que ouvi, se não me falha a memória, da própria presidente ou de algum de seus ministros, a defesa de que era preciso gastar mais justamente nos momentos de crise, com Keynes como referência. Até então, para mim, Keynes era apenas um grande nome dos livros da faculdade. A pergunta mudou: por que um governo que já gastava tanto se apoiava em Keynes para gastar ainda mais?

Quem foi Keynes, e por que ele domina as faculdades

John Maynard Keynes foi um economista britânico que escreveu, em 1936, a Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. Em plena Grande Depressão, ele defendeu que, nas crises, as pessoas e as empresas param de gastar, e cabe ao governo preencher esse vazio com gasto público, mesmo que isso gere déficit. Expliquei suas ideias com mais calma no texto Liberalismo, keynesianismo e neoliberalismo.

Por que ele domina os cursos de Economia? Há razões acadêmicas e há razões políticas:

  • Ele moldou a macroeconomia moderna. Conceitos como demanda agregada, multiplicador e política fiscal anticíclica viraram a base dos manuais do mundo inteiro depois da Segunda Guerra.
  • Ele cabe em modelos. As ideias keynesianas se traduzem bem em equações e gráficos, o que facilita o ensino. A Escola Austríaca, que desconfia dos modelos matemáticos, ficou à margem das universidades.
  • Ele dá ao político o que o político quer. Uma teoria que autoriza gastar mais é sempre bem-vinda em Brasília. O problema é que Keynes também dizia que o governo deveria economizar nos anos bons. Essa segunda metade da receita quase nunca é seguida.
  • No Brasil, a tradição desenvolvimentista dominou boa parte dos cursos de Economia por décadas, com forte simpatia pela ideia do Estado como motor do crescimento.

Não é que não se estude nada além de Keynes, mas, na minha experiência, Mises e Hayek apareciam, quando muito, como uma nota de rodapé. Ninguém me apresentou a eles na sala de aula. Fui eu que fui atrás.

A resposta veio de Viena

A resposta para a minha pergunta veio quando comecei a ler Ludwig von Mises e Friedrich von Hayek. Eles explicavam o que eu estava vendo acontecer no país: crédito barato e gasto público criam uma sensação artificial de prosperidade, mas a conta chega. Os investimentos errados aparecem, a inflação sobe, os juros precisam subir, e vem a recessão.

Foi exatamente o que aconteceu. Depois da eleição, o Brasil mergulhou numa das piores recessões da sua história, com queda acumulada de cerca de 7% do PIB em 2015 e 2016. A inflação passou de 10% em 2015, o desemprego explodiu, e as manobras nas contas públicas, as chamadas pedaladas fiscais, terminaram no impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. Para um leitor de Mises e Hayek, aquilo não foi azar: foi a ressaca previsível da farra de crédito e gasto dos anos anteriores, que analisei no texto O que é a Escola Austríaca?

Desde então, sou defensor da Escola Austríaca de economia.

O que a minha sala de aula me ensinou

Uma cena daquela época me marcou. Um dia, fiz uma conta com os colegas da turma: dos alunos da sala, só eu e mais dois ou três pagávamos a mensalidade do próprio bolso. Quase todos os outros estudavam com bolsa ou financiamento de programas do governo federal, como o ProUni e o Fies, que se expandiram muito naqueles anos.

Quero ser justo aqui: não critico nenhum colega por usar um programa que estava disponível. Muitos ralavam tanto quanto eu. O que me chamou a atenção foi outra coisa: aquele dinheiro não caía do céu. Ele saía dos impostos de quem trabalhava, inclusive de quem, como eu, também pagava a própria faculdade. E mostrava o tamanho que o Estado tinha assumido na vida das pessoas.

A sequência confirmou a lição austríaca. O Fies cresceu de forma explosiva até 2014 e, quando a crise fiscal chegou, foi cortado de forma drástica em 2015. Muitos estudantes ficaram sem vaga, e o programa deixou uma inadimplência enorme. Gasto público sem lastro parece generosidade no começo e vira frustração no final. Quem mais sofre são justamente os que mais dependiam dele.

Keynes é mesmo o vilão?

Para a economia liberal, Keynes virou o símbolo de tudo o que deu errado: o Estado inchado, o déficit permanente, a inflação como ferramenta. E o pensamento dele é, sim, o grande adversário das ideias que defendo neste blog.

Mas, para ser honesto, Keynes não pediu déficit eterno. Ele defendia gastar na crise e economizar na bonança. O que os governos fizeram, no Brasil e no mundo, foi pegar a parte confortável da receita e esquecer a outra. Os keynesianos diriam que o problema foi a aplicação, não a ideia. Os austríacos respondem que uma ideia que, na prática, sempre vira desculpa para gastar mais tem um defeito de origem: ela entrega ao governo um poder que nenhum governo usa com moderação.

Eu fico com os austríacos. E aprendi isso não só nos livros, mas vendo o Brasil de 2014 a 2016.

Ser pensante, não ser pensado

Tenho um filho de 10 anos, e uma frase que repito sempre para ele é: seja um ser pensante, não um ser pensado.

Foi isso que a leitura de Smith, Mises e Hayek me ensinou. Ninguém me mandou ler esses autores; ninguém os colocou na minha frente. Eu fui atrás porque uma pergunta não me deixava em paz. E é esse o convite que deixo para você, principalmente se você é estudante de Economia: leia Keynes, entenda Keynes, mas leia também quem discorda dele. Não aceite a primeira explicação que te derem, nem a minha. Pense por conta própria.

O garoto de Bangu que perdeu o pai aos 16 anos não teve as melhores oportunidades. Mas teve uma coisa que ninguém pode tirar de ninguém: a liberdade de pensar. No fim, é sobre isso que a Escola Austríaca fala.

Texto de opinião e relato pessoal do autor.

Para quem quer começar

  • Adam Smith, A Riqueza das Nações (1776)
  • John Maynard Keynes, Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda (1936)
  • Ludwig von Mises, As Seis Lições (1959)
  • Friedrich von Hayek, O Caminho da Servidão (1944)

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