Crédito subsidiado para comprar caminhão, trator e carro de aplicativo. Saque extra do FGTS. Desconto na gasolina. Pix para o MEI. Em 2026, o governo injetou na economia, segundo diferentes levantamentos, entre R$ 215 bilhões e R$ 354 bilhões em medidas de estímulo. Para quem recebe, a sensação é de alívio. Para um economista da Escola Austríaca, é um filme conhecido. E o final dele não costuma ser feliz.
O que é a teoria austríaca dos ciclos
Ludwig von Mises, em 1912, e Friedrich Hayek, nos anos 1930, desenvolveram uma explicação para os ciclos de euforia e crise que Hayek levou ao Nobel de 1974. A ideia central é simples:
- O crédito fica artificialmente barato, não porque as pessoas pouparam mais, mas porque o governo ou o banco central decidiu assim.
- Empresas e famílias reagem ao sinal falso. Investem, compram e se endividam como se houvesse mais recursos disponíveis do que realmente há.
- Vem a euforia: vendas sobem, emprego melhora, todo mundo se sente mais rico.
- A conta chega. Como a poupança real não existia, os recursos acabam, os preços sobem, os juros precisam subir, e muitos investimentos se revelam errados. Mises chamou isso de malinvestment: investimento mal alocado.
- A recessão é a correção, o momento em que a economia desfaz os erros da euforia.
A versão brasileira: juros altos e crédito barato ao mesmo tempo
O Brasil de 2026 tem uma particularidade curiosa. A Selic está em 13,75%, um dos juros reais mais altos do mundo. Em tese, isso deveria frear o crédito. Mas, ao mesmo tempo, o governo abre linhas de crédito subsidiado em bancos públicos: R$ 30 bilhões para veículos de motoristas de aplicativo e taxistas, R$ 21 bilhões para caminhões e ônibus, bilhões para máquinas agrícolas, exportadoras e indústria.
É como dirigir com um pé no freio e outro no acelerador. O Banco Central pisa no freio para segurar a inflação; o governo pisa no acelerador para estimular a economia. O resultado é duplamente ruim: quem não tem acesso ao crédito subsidiado paga juros altíssimos, e quem tem acesso recebe um sinal de preço falso. É exatamente o tipo de distorção que a teoria austríaca descreve.
Já vimos esse filme. Entre 2010 e 2014, o BNDES emprestou centenas de bilhões com juros subsidiados, o governo segurou preços de energia e combustíveis e o crédito público explodiu. O resultado foi a recessão de 2015 e 2016, com queda de cerca de 7% do PIB, como contei no texto Keynes, o vilão da economia liberal.
Os sinais de alerta de 2026
- Inflação acima do teto da meta, mesmo com juros altíssimos: 4,58% em 12 meses até setembro, e o mercado já projeta 5,22% para o ano.
- Endividamento recorde das famílias e recuperações judiciais de empresas no maior nível da série.
- Dívida pública perto de 83% do PIB e risco de descumprimento da meta fiscal de 2027, segundo a Instituição Fiscal Independente do Senado.
- Desaceleração à vista: o FMI cortou a projeção de crescimento do Brasil para 2026 e 2027.
O que isso significa para 2027
Quem vencer a eleição vai herdar a ressaca. Seja quem for, terá de lidar com um orçamento apertado, uma inflação teimosa e investimentos feitos com base em crédito que não vai se repetir. Para a Escola Austríaca, a pior resposta seria tentar adiar a correção com mais estímulo; isso só aumenta o tamanho do problema. A melhor resposta é parar de distorcer: cortar gastos, encerrar o crédito subsidiado e deixar que os juros caiam pela confiança, e não por decreto.
E o empresário, o que faz?
- Não confunda estímulo com demanda real. Se as vendas subiram por causa de um programa do governo, pergunte o que acontece quando ele acabar.
- Cuidado com investimentos que só fecham com crédito subsidiado. Se o projeto não se paga a juros de mercado, ele provavelmente é um malinvestment.
- Fortaleça o caixa agora. Os anos de ressaca premiam quem tem liquidez.
- Evite dívida cara de curto prazo para financiar crescimento que depende do humor do governo.
Em resumo
- Para Mises e Hayek, crédito artificialmente barato gera euforia, investimentos errados e, depois, crise.
- O Brasil de 2026 combina juros altíssimos com crédito público subsidiado: freio e acelerador ao mesmo tempo.
- Inflação acima da meta, endividamento recorde e dívida pública alta são sinais de alerta.
- Quem vencer a eleição vai herdar a ressaca de 2027.
- O empresário deve separar demanda real de estímulo e reforçar o caixa.
Texto de análise e opinião do autor, com base em dados do IBGE, do Boletim Focus, da IFI e em levantamentos da CNN Brasil, do Estadão e do Insper sobre as medidas de 2026.
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