O Brasil vive um boom artificial? O ciclo econômico austríaco explica 2026 e o que vem em 2027

Crédito subsidiado para comprar caminhão, trator e carro de aplicativo. Saque extra do FGTS. Desconto na gasolina. Pix para o MEI. Em 2026, o governo injetou na economia, segundo diferentes levantamentos, entre R$ 215 bilhões e R$ 354 bilhões em medidas de estímulo. Para quem recebe, a sensação é de alívio. Para um economista da Escola Austríaca, é um filme conhecido. E o final dele não costuma ser feliz.

O que é a teoria austríaca dos ciclos

Ludwig von Mises, em 1912, e Friedrich Hayek, nos anos 1930, desenvolveram uma explicação para os ciclos de euforia e crise que Hayek levou ao Nobel de 1974. A ideia central é simples:

  1. O crédito fica artificialmente barato, não porque as pessoas pouparam mais, mas porque o governo ou o banco central decidiu assim.
  2. Empresas e famílias reagem ao sinal falso. Investem, compram e se endividam como se houvesse mais recursos disponíveis do que realmente há.
  3. Vem a euforia: vendas sobem, emprego melhora, todo mundo se sente mais rico.
  4. A conta chega. Como a poupança real não existia, os recursos acabam, os preços sobem, os juros precisam subir, e muitos investimentos se revelam errados. Mises chamou isso de malinvestment: investimento mal alocado.
  5. A recessão é a correção, o momento em que a economia desfaz os erros da euforia.

A versão brasileira: juros altos e crédito barato ao mesmo tempo

O Brasil de 2026 tem uma particularidade curiosa. A Selic está em 13,75%, um dos juros reais mais altos do mundo. Em tese, isso deveria frear o crédito. Mas, ao mesmo tempo, o governo abre linhas de crédito subsidiado em bancos públicos: R$ 30 bilhões para veículos de motoristas de aplicativo e taxistas, R$ 21 bilhões para caminhões e ônibus, bilhões para máquinas agrícolas, exportadoras e indústria.

É como dirigir com um pé no freio e outro no acelerador. O Banco Central pisa no freio para segurar a inflação; o governo pisa no acelerador para estimular a economia. O resultado é duplamente ruim: quem não tem acesso ao crédito subsidiado paga juros altíssimos, e quem tem acesso recebe um sinal de preço falso. É exatamente o tipo de distorção que a teoria austríaca descreve.

Já vimos esse filme. Entre 2010 e 2014, o BNDES emprestou centenas de bilhões com juros subsidiados, o governo segurou preços de energia e combustíveis e o crédito público explodiu. O resultado foi a recessão de 2015 e 2016, com queda de cerca de 7% do PIB, como contei no texto Keynes, o vilão da economia liberal.

Os sinais de alerta de 2026

  • Inflação acima do teto da meta, mesmo com juros altíssimos: 4,58% em 12 meses até setembro, e o mercado já projeta 5,22% para o ano.
  • Endividamento recorde das famílias e recuperações judiciais de empresas no maior nível da série.
  • Dívida pública perto de 83% do PIB e risco de descumprimento da meta fiscal de 2027, segundo a Instituição Fiscal Independente do Senado.
  • Desaceleração à vista: o FMI cortou a projeção de crescimento do Brasil para 2026 e 2027.

O que isso significa para 2027

Quem vencer a eleição vai herdar a ressaca. Seja quem for, terá de lidar com um orçamento apertado, uma inflação teimosa e investimentos feitos com base em crédito que não vai se repetir. Para a Escola Austríaca, a pior resposta seria tentar adiar a correção com mais estímulo; isso só aumenta o tamanho do problema. A melhor resposta é parar de distorcer: cortar gastos, encerrar o crédito subsidiado e deixar que os juros caiam pela confiança, e não por decreto.

E o empresário, o que faz?

  1. Não confunda estímulo com demanda real. Se as vendas subiram por causa de um programa do governo, pergunte o que acontece quando ele acabar.
  2. Cuidado com investimentos que só fecham com crédito subsidiado. Se o projeto não se paga a juros de mercado, ele provavelmente é um malinvestment.
  3. Fortaleça o caixa agora. Os anos de ressaca premiam quem tem liquidez.
  4. Evite dívida cara de curto prazo para financiar crescimento que depende do humor do governo.

Em resumo

  1. Para Mises e Hayek, crédito artificialmente barato gera euforia, investimentos errados e, depois, crise.
  2. O Brasil de 2026 combina juros altíssimos com crédito público subsidiado: freio e acelerador ao mesmo tempo.
  3. Inflação acima da meta, endividamento recorde e dívida pública alta são sinais de alerta.
  4. Quem vencer a eleição vai herdar a ressaca de 2027.
  5. O empresário deve separar demanda real de estímulo e reforçar o caixa.

Texto de análise e opinião do autor, com base em dados do IBGE, do Boletim Focus, da IFI e em levantamentos da CNN Brasil, do Estadão e do Insper sobre as medidas de 2026.

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