Na véspera da reunião do Copom, marcada para 3 e 4 de novembro, uma proposta passou a dominar o debate econômico: reduzir a Selic dos atuais 13,75% para cerca de 7,5% ao ano em 12 meses. O autor é o economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, em artigo publicado em seu Substack e republicado em 1º de novembro sob o título “Eu acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos”. Segundo a imprensa, a ideia chegou ao radar do presidente Lula, e a deputada Gleisi Hoffmann classificou o texto como “fundamental”.
Respeito a trajetória de Lara Resende e reconheço que parte do diagnóstico dele está correta. Mas, na minha avaliação, a solução proposta é um risco sério para o país. Explico por quê.
O que Lara Resende propõe
O argumento central do artigo é que o problema fiscal brasileiro não está no déficit primário, que seria pequeno, e sim nos juros. Ele estima o custo dos juros sobre a dívida em cerca de R$ 1,4 trilhão por ano, algo como 10,5% do PIB, e afirma que a taxa básica do Banco Central é o principal motor do crescimento da dívida. Para corrigir isso, propõe:
- criar um Conselho Fiscal e Monetário Nacional para definir metas fiscais e monetárias de quatro a cinco anos;
- manter a Selic, de forma permanente, entre a meta de inflação (3%) e o crescimento nominal potencial da economia (cerca de 5,5%), com exceções autorizadas pelo conselho;
- reduzir a Selic gradualmente, em cerca de 12 meses, até aproximadamente 7,5%;
- usar as reservas internacionais, hoje acima de US$ 350 bilhões, para conter uma eventual disparada do dólar.
Segundo os cálculos do autor, a medida economizaria cerca de 4% do PIB por ano em juros. Ele se apoia na chamada Teoria Fiscal do Nível de Preços, associada ao economista americano John Cochrane, para sustentar que, no longo prazo, juros mais baixos não necessariamente geram mais inflação.
Onde ele tem razão
O custo dos juros sobre a dívida pública brasileira é, de fato, um dos maiores do mundo, e consome recursos que poderiam ir para investimento ou para reduzir impostos. Também é verdade que uma parte relevante da dívida está em títulos atrelados à própria Selic, o que faz cada alta de juros pesar imediatamente nas contas públicas. Nenhum economista sério discorda de que esse é um problema. A divergência está em qual é a causa e qual é a consequência.
Onde a proposta falha
1. Os juros altos são sintoma, não a doença. O Brasil paga juros altos porque o investidor exige um prêmio para financiar um governo que gasta mais do que arrecada e cuja dívida cresce sem âncora crível. A semana passada mostrou isso com clareza: sem nenhum sinal fiscal concreto, o Ibovespa perdeu cerca de 18% e o dólar foi a R$ 5,44, como analisei em texto anterior. Gestores ouvidos pela imprensa resumiram bem: o diagnóstico de Lara Resende pode estar certo, mas a conclusão inverte causa e efeito.
2. O Brasil já testou isso, em 2012. Entre 2011 e 2012, o governo pressionou por cortes e a Selic chegou a 7,25%, o menor nível da história até então. A inflação subiu até o teto da meta e o Banco Central teve de recuar: em 2015, a Selic estava em 14,25%, com o país mergulhado na pior recessão da sua história. O economista Sérgio Vale, da MB Associados, lembrou esse precedente e observou que hoje as condições são ainda menos favoráveis: juros altos nos Estados Unidos, piora fiscal e estímulos do governo em curso.
3. A proposta pressupõe o ajuste que ainda não existe. Marcos Mendes, do Insper, comparou o plano à velha piada do economista na ilha deserta que, diante de uma lata de comida, “supõe um abridor de latas”. A própria Teoria Fiscal do Nível de Preços, citada por Lara Resende, coloca a credibilidade das contas públicas no centro da determinação da inflação. Sem um plano fiscal crível, juros baixos por decreto não reduzem a inflação de longo prazo; tendem a acelerá-la.
4. As reservas não são infinitas. Usar US$ 350 bilhões para segurar o câmbio enquanto se derruba os juros pode funcionar por algum tempo, mas é “enxugar gelo”, na expressão de gestores do mercado. Se o investidor sai, sai em volume. O Brasil conheceu o fim desse filme em 1999, quando a defesa do câmbio consumiu reservas e terminou em maxidesvalorização.
5. O fim da autonomia do Banco Central. Desde a Lei Complementar 179, de 2021, o Banco Central tem autonomia para perseguir a meta de inflação. Um conselho que fixe a faixa da Selic com base no custo da dívida subordina a política monetária à necessidade de financiamento do governo. Os economistas chamam isso de dominância fiscal. Em países que seguiram esse caminho recentemente, como a Turquia, que cortou juros com inflação alta a partir de 2021, o resultado foi moeda em colapso e inflação acima de 80% ao ano em 2022.
O que a Escola Austríaca ensina
Para Ludwig von Mises e Friedrich Hayek, a taxa de juros é um preço: o preço do tempo, que reflete quanto as pessoas estão dispostas a poupar e quanto os empresários querem investir. Quando a autoridade monetária fixa esse preço abaixo do nível compatível com a poupança disponível, o resultado não é prosperidade, é um boom artificial: crédito farto, investimentos que parecem lucrativos só porque o dinheiro está barato e, mais adiante, a correção, com inflação, falências e desemprego. Expliquei esse mecanismo em O Brasil vive um boom artificial?
A proposta de Lara Resende tenta resolver um problema criado pelo excesso de Estado com ainda mais poder concentrado no Estado: um conselho decidindo, por critério político, quanto deve custar o dinheiro no país. É a tentação de controlar um preço para esconder o desequilíbrio que ele revela.
O caminho que funciona
A Selic pode, sim, cair para um dígito, e o Brasil já esteve lá: em 2020 ela chegou a 2%, e em 2019 estava em 6,5% com inflação controlada. Mas, em 2019, o país vinha de reforma da Previdência, teto de gastos e expectativa de ajuste. Os juros caíram como consequência da credibilidade, e não por decreto. A ordem dos fatores importa:
- controle crível e verificável do gasto público;
- queda do prêmio de risco cobrado pelos investidores;
- expectativas de inflação ancoradas;
- só então, espaço para o Banco Central cortar juros de forma sustentável.
Inverter essa ordem é trocar um problema caro por um problema muito mais caro.
O que isso significa para o empresário
Para quem toca uma empresa, a simples possibilidade de interferência política nos juros já tem custo: dólar mais volátil, insumos importados mais caros e juros futuros mais altos, que encarecem o crédito de longo prazo. Neste momento, prudência significa reforçar o caixa, evitar dívidas longas desnecessárias e acompanhar de perto o comunicado do Copom desta quarta-feira, 4 de novembro, e a posição do governo sobre a proposta.
Em resumo
- André Lara Resende propõe levar a Selic a cerca de 7,5% em 12 meses e criar um conselho para fixar a faixa de juros e as metas fiscais.
- O diagnóstico sobre o peso dos juros na dívida tem mérito; a solução inverte causa e efeito.
- O Brasil já testou cortes forçados em 2012 e pagou com inflação e recessão; a Turquia é o exemplo recente mais extremo.
- Pela lente austríaca, juros são um preço; fixá-los artificialmente produz booms artificiais e correções dolorosas.
- Juros baixos e sustentáveis são consequência de credibilidade fiscal, não de decreto.
Artigo de análise e opinião do autor. A proposta de André Lara Resende foi resumida a partir do artigo “Eu acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos”, republicado pelo Diário do Centro do Mundo em 1º de novembro de 2026; reações de mercado e de economistas conforme Política Livre e Termômetro da Política. Este conteúdo não é recomendação de compra ou venda de ativos.
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