Em agosto de 2020, a Selic chegou a 2% ao ano, a menor taxa da história. Empresas do país inteiro correram aos bancos para tomar crédito barato e atravessar a pandemia. Seis anos depois, a Selic está em 13,75%, e o Brasil vive um recorde de recuperações judiciais. Como saímos de um extremo para o outro? E o que esperar dos juros depois da eleição do dia 25?
Este texto não é sobre culpar um partido. É sobre mostrar os erros, de vários governos, que levaram o preço do dinheiro no Brasil ao patamar atual.
A montanha-russa da Selic
| Período | Selic | O que aconteceu |
|---|---|---|
| Ago/2020 a mar/2021 | 2% | Mínima histórica, em plena pandemia |
| Ago/2022 | 13,75% | Alta rápida para combater a inflação de 2021, que passou de 10% |
| Mai/2024 | 10,50% | Ciclo de cortes |
| Jun/2025 | 15% | Nova alta, com a desconfiança sobre as contas públicas |
| Set/2026 | 13,75% | Cinco cortes seguidos, com inflação ainda acima da meta |
Erro 1: o dinheiro barato demais da pandemia
A pandemia exigia respostas rápidas, e é justo reconhecer que o crédito emergencial salvou muitas empresas. Mas a combinação de Selic a 2%, gasto público recorde e programas de crédito com juros quase simbólicos (o Pronampe de 2020 cobrava a Selic mais 1,25% ao ano) criou o ambiente clássico que a Escola Austríaca descreve: dinheiro artificialmente barato, que leva empresas a se endividar como se aquelas condições fossem durar.
Não duraram. A inflação de 2021 passou de 10%, e o Banco Central levou a Selic de 2% a 13,75% em pouco mais de um ano. Quem tinha tomado crédito pós-fixado viu a parcela disparar. O próprio Pronampe, que já emprestou mais de R$ 190 bilhões desde 2020, acumula cerca de R$ 9 bilhões em inadimplência. Esse foi o erro de 2020 e 2021, no governo de Jair Bolsonaro e na gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central: manter o dinheiro barato por tempo demais.
Erro 2: os pacotes eleitorais
Em 2022, ano de eleição, o Congresso aprovou uma PEC que ampliou benefícios sociais às vésperas do pleito e o governo cortou tributos sobre combustíveis para segurar preços. Em 2026, a história se repete com outro governo: o pacote de medidas soma, conforme o levantamento, de R$ 215 bilhões a R$ 354 bilhões, como mostrei no texto Pacote de bondades: quem paga a conta. Em ano eleitoral, todo governo tende a gastar, e todo gasto sem lastro vira juro mais alto depois.
Erro 3: o gasto que não para de crescer
A partir de 2023, o governo Lula abriu espaço para mais despesas logo na largada, com a PEC da Transição, e trocou o teto de gastos por um arcabouço fiscal mais flexível, que permite o gasto crescer todos os anos acima da inflação. O ajuste veio principalmente pelo lado da receita, com aumento de impostos, e não pelo corte de despesas. A dívida pública subiu para perto de 83% do PIB.
O mercado reagiu como sempre reage: cobrando mais para financiar um governo que dá poucos sinais de arrumar as contas. No fim de 2024, o dólar passou de R$ 6, as expectativas de inflação se desancoraram, e o Banco Central, já sob o comando de Gabriel Galípolo, indicado por Lula, precisou levar a Selic a 15%. É o que os economistas chamam de dominância fiscal: quando o gasto do governo obriga o Banco Central a manter os juros nas alturas.
A conta chegou: o recorde de recuperações judiciais
Os dados da Serasa Experian contam o resto da história:
| Ano | Pedidos de recuperação judicial |
|---|---|
| 2021 | 891 |
| 2022 | 833 |
| 2023 | 1.405 |
| 2024 | 2.273 (recorde desde 2005) |
| 2025 | 2.466 empresas em 977 processos (novo recorde, com nova metodologia) |
Repare na curva. Durante a pandemia, os pedidos caíram: o crédito barato e as renegociações adiaram o problema. Quando os juros subiram e ficaram altos por anos, a fatura chegou. Os recordes vieram em 2024 e 2025, já no governo Lula, e a pressão continua em 2026, com 8,7 milhões de CNPJs negativados no início do ano.
Para um economista austríaco, isso não é azar. É o ciclo completo: dinheiro barato demais na pandemia, investimentos e dívidas feitos em condições que não eram reais, e depois juros altíssimos por tempo prolongado, mantidos pelo gasto público. As duas pontas, a do dinheiro barato e a do dinheiro caro, foram decisões de governo e de Banco Central, não do mercado. Expliquei a teoria no texto sobre o ciclo econômico austríaco.
E depois do dia 25?
O Copom se reúne em 3 e 4 de novembro, na primeira reunião depois do segundo turno. O mercado, pelo Boletim Focus, espera Selic de 13,25% no fim de 2026 e de 12% em 2027, com a inflação projetada em 5,22% para este ano, acima do teto da meta.
Os analistas concordam num ponto: quem vai decidir os juros não é o nome do eleito, e sim o que ele fizer com o gasto público. Um governo que apresente corte de despesas crível abre espaço para os juros caírem mais rápido em 2027. Um governo que mantenha a expansão do gasto vai conviver com a Selic alta por mais tempo, seja quem for. O mercado já reage às pesquisas, com o dólar voltando para perto de R$ 5 e os juros futuros em queda, mas promessa de campanha não é orçamento.
O que o empresário deve fazer agora
- Não aposte a empresa num resultado eleitoral. Planeje para juros altos até meados de 2027; se caírem antes, ótimo.
- Revise as dívidas pós-fixadas. Se a parcela já aperta, renegocie prazo antes que ela vire inadimplência.
- Alongue, não empilhe. Trocar dívida curta e cara por dívida longa dá fôlego ao caixa.
- Reduza a necessidade de capital de giro antes de pedir mais crédito, como mostrei no texto sobre capital de giro.
A minha leitura
Eu estudo economia e convivo com a macroeconomia todos os dias, do outro lado da mesa. E a lição desses seis anos é clara para mim: os juros no Brasil não estão altos por causa do mercado, estão altos por causa da intervenção. Primeiro, o dinheiro barato demais; depois, o gasto que não para de crescer. Defendo um mercado com o mínimo de interferência, e os dados desse período só reforçam essa convicção. Quem paga a conta dos erros de Brasília, de qualquer governo, é o empresário que hoje bate na porta da recuperação judicial.
Em resumo
- A Selic foi de 2% na pandemia a 15% em 2025 e está hoje em 13,75%.
- O dinheiro barato demais de 2020 e 2021 incentivou dívidas que não resistiram aos juros altos.
- Pacotes eleitorais e o gasto crescente a partir de 2023 mantiveram a Selic nas alturas.
- As recuperações judiciais bateram recorde em 2024 e 2025.
- Depois do dia 25, o que vai definir os juros é a política fiscal do eleito, não o nome dele.
Texto de análise e opinião do autor, com dados do Banco Central, do Boletim Focus e da Serasa Experian. A série de recuperações judiciais mudou de metodologia em 2025.
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