Na sexta-feira, 23 de outubro, a dois dias do segundo turno, Lula e Flávio Bolsonaro fizeram o último debate da campanha, na TV Globo, mediado por César Tralli. Houve ataques, pedido de desculpas e momentos tensos, que analiso em outro texto. Aqui, o foco é o que interessa ao bolso: o que cada um prometeu para a economia, e quem vai pagar.
Salário mínimo e aposentadorias
Foi o tema central da noite. Lula defendeu a política de valorização do salário mínimo, disse que sem ela o piso seria de R$ 900, e cobrou do adversário uma resposta sobre os cerca de 26 milhões de aposentados, pensionistas e beneficiários do BPC que recebem o mínimo: “Vai ou não vai?” Flávio respondeu: “Com certeza eu vou reajustar sim”, e prometeu salário mínimo e aposentadorias acima da inflação. Também disse que não vai privatizar Banco do Brasil, Caixa e Petrobras.
O que ninguém disse: cada real de aumento real no salário mínimo aumenta automaticamente as despesas da Previdência e do BPC, que já são a maior parte do orçamento federal. Num país com dívida perto de 83% do PIB e cerca de 93% das despesas obrigatórias, prometer reajuste acima da inflação sem dizer de onde sai o dinheiro é prometer pressão sobre os juros.
Custo de vida e inflação
Flávio insistiu no custo de vida: “Não adianta nada, Lula, o salário mínimo ser de R$ 1.621 se você dá com uma mão e tira com” (e aqui usou um apelido ofensivo do qual depois se desculpou). O argumento econômico por trás da frase é válido e é o centro da Escola Austríaca: aumento nominal de salário não é aumento de riqueza se a inflação come o poder de compra. A inflação projetada para 2026 está em 5,22%, acima do teto da meta. Expliquei isso no texto sobre inflação segundo a Escola Austríaca.
Dívidas das famílias: os dois querem o governo comprando dívida
Flávio perguntou: “Por que você endividou o povo brasileiro desse jeito?”, atribuindo o endividamento aos gastos do governo e aos juros altos. Ele também acusou Lula de gastar mais de R$ 405 bilhões para tentar a reeleição. Lula citou os dois Desenrola, que, segundo ele, alcançaram cerca de 15 e 16 milhões de pessoas, e apresentou uma nova etapa: o governo faria um leilão para comprar carteiras de dívidas dos bancos e oferecer descontos aos devedores. Também associou o endividamento às apostas on-line, as bets.
Repare num detalhe: no debate da Band, Flávio já tinha prometido que o governo compraria as dívidas das famílias junto aos bancos. Agora, Lula propõe algo muito parecido. Os dois candidatos convergem na ideia de o Estado comprar dívidas. Para um liberal, é a mesma crítica nos dois casos: o dinheiro sai do contribuinte, inclusive de quem pagou as contas em dia, e o remédio não ataca a causa, que são os juros altos provocados pelo gasto público.
Tarifa zero: outro ponto de convergência
Lula apresentou o passe livre nos fins de semana como complemento ao fim da escala 6×1 e perguntou se Flávio apoiava. Flávio respondeu que é a favor da tarifa zero nos fins de semana, mas criticou a política econômica do governo. Ou seja: a proposta mais cara anunciada na reta final, com custo estimado de R$ 90 bilhões a R$ 200 bilhões por ano na versão completa, hoje tem o apoio dos dois. Discuti os riscos no texto sobre Mises e a armadilha do intervencionismo.
Impostos, Caixa e Bolsa Família
- IVA: Flávio alertou que a alíquota do novo imposto sobre consumo pode chegar a 28%, a maior do mundo, tema do texto sobre a reforma tributária.
- Caixa: Flávio repetiu a ideia de transformar o banco em “Itaú das favelas”, focado em empreendedores de baixa renda, com juros menores.
- Bolsa Família: Flávio propôs aumentar o benefício e manter o pagamento por um período para quem conseguir emprego formal ou abrir um negócio, para que a pessoa não tenha medo de sair do programa. É uma ideia defendida por economistas de várias correntes, porque reduz o incentivo a permanecer na informalidade.
- Agro: Flávio criticou o crédito rural e o Plano Safra; Lula defendeu o financiamento e criticou a posição de Flávio sobre as tarifas americanas.
A minha leitura
O último debate mostrou algo que deveria preocupar qualquer pagador de impostos: na reta final, os dois candidatos prometeram mais gasto. Salário mínimo e aposentadoria acima da inflação, tarifa zero, governo comprando dívidas. A diferença entre eles está no diagnóstico: Flávio aponta o gasto público e a inflação como causa dos problemas, o que está mais perto da visão liberal; Lula aposta na expansão de programas para fazer a economia girar.
Mas diagnóstico certo com remédio de gasto não fecha a conta. Seja quem for eleito no domingo, a pergunta de 2027 será a mesma: qual gasto vai ser cortado para pagar as promessas? Nenhum dos dois respondeu.
Em resumo
- Os dois prometeram salário mínimo e aposentadorias acima da inflação.
- Os dois defendem o governo comprando dívidas das famílias e a tarifa zero nos fins de semana.
- Flávio culpou o gasto público pelo custo de vida e alertou para o IVA de 28%; Lula defendeu a valorização do mínimo e o Desenrola.
- A proposta de manter o Bolsa Família por um período para quem consegue emprego é um dos pontos mais bem avaliados por economistas.
- Nenhum dos dois explicou de onde virá o dinheiro.
Texto de análise e opinião do autor, com base nas coberturas do debate da TV Globo publicadas por Gazeta do Povo, Itatiaia, Estado de Minas e Diario de Pernambuco em 23 de outubro de 2026.
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