O último debate do segundo turno, na TV Globo, teve um formato diferente: no primeiro bloco, os candidatos falaram sobre as cinco regiões do país; no segundo, sobre temas sorteados pela emissora, como SUS e educação; no terceiro, sobre temas livres. O resultado foi um debate com mais propostas do que o da Band. Neste texto, reúno as principais promessas fora da economia e os fatos por trás de cada uma.
Obras e infraestrutura
Flávio questionou por que Lula não terminou obras paradas em quatro anos de governo e prometeu expandir as ferrovias. Lula citou os investimentos do PAC, a Transnordestina, a transposição do São Francisco, universidades e institutos federais, e disse ter herdado cerca de 6 mil obras paradas.
O fato: segundo checagem do g1 citada por colunistas, o governo Bolsonaro reduziu o número de obras paradas de cerca de 14 mil para 8 mil. Os dois têm parte da razão: o problema é antigo, atravessa governos e mostra uma falha estrutural. O Estado brasileiro começa mais obras do que consegue pagar, e cada obra parada é dinheiro do contribuinte enterrado.
Saneamento
Flávio lembrou que o PT votou contra o Marco Legal do Saneamento, de 2020, e prometeu universalizar o serviço até 2033, a meta que o próprio marco estabelece. Lula respondeu com os investimentos do governo em saúde, estradas, portos e aeroportos.
A lente liberal: o Marco do Saneamento é um dos melhores exemplos recentes de abertura ao setor privado no Brasil. Ao permitir concorrência e concessões, destravou bilhões em investimentos em leilões de água e esgoto. É a prova de que, quando o Estado sai da frente e cria regras claras, o capital privado entrega o que o poder público prometeu por décadas.
Nordeste e governadores
Flávio mirou a região onde Lula é mais forte: prometeu ampliar investimentos, governar com os governadores, inclusive os de oposição, e citou a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, como parceira em segurança e infraestrutura. Também acusou governos estaduais aliados ao PT de deixarem o crime organizado crescer. Lula defendeu seu histórico na região e disse que o Nordeste deve ser tratado em pé de igualdade com o resto do país.
SUS e saúde
Flávio apontou problemas de gestão, falta de remédios e filas longas, e prometeu um “tesouraço” em corrupção, burocracia e impostos. Lula creditou ao SUS a redução de mortes na pandemia e criticou a gestão de Jair Bolsonaro na crise, dizendo que o governo deveria ter montado um gabinete de crise com especialistas.
Lula também cobrou um voto antigo de Flávio, como deputado estadual no Rio, contra a ampliação da licença-maternidade. Flávio admitiu que errou e citou a própria experiência como pai. Foi um dos poucos momentos do debate em que um candidato reconheceu um erro, o que é raro e merece registro.
Segurança, bets e relação com os EUA
- Segurança: Flávio manteve a segurança como prioridade. Lula o confrontou sobre o caso Ana Clara, menina de 5 anos morta por um tiro de fuzil em 2021, lembrando que Flávio, como advogado, defendeu o policial acusado. Foi o momento mais difícil da noite para o senador.
- Bets: Lula se apresentou como quem acabou com a farra das apostas on-line e chamou Jair Bolsonaro de “pai das bets”, porque o governo anterior não regulamentou o setor.
- Estados Unidos: Lula acusou Flávio de querer entregar o país a Donald Trump ao apoiar a classificação das facções como terroristas. Flávio já havia negado, no debate da Band, ter atuado a favor das tarifas americanas.
A minha leitura
O formato por regiões e temas obrigou os candidatos a falar de coisas concretas, e isso foi bom para o eleitor. Mas, de novo, faltou o “como”. Universalizar saneamento, terminar obras, melhorar o SUS e combater o crime custam caro, e nenhum dos dois explicou como fazer tudo isso com as contas no vermelho. A diferença de abordagem, porém, ficou clara: Flávio aposta mais em gestão, parcerias e setor privado; Lula, em mais investimento público e programas federais.
Em resumo
- Obras paradas são um problema de todos os governos; cada lado citou números que favorecem seu período.
- Flávio prometeu saneamento universal até 2033 e lembrou o voto do PT contra o Marco do Saneamento.
- No Nordeste, Flávio prometeu governar com governadores de oposição; Lula defendeu seu histórico na região.
- No SUS, Flávio focou em gestão; Lula, na pandemia. Flávio admitiu erro sobre a licença-maternidade.
- O caso Ana Clara foi o momento mais difícil para Flávio; faltou aos dois explicar como pagar as promessas.
Texto de análise e opinião do autor, com base nas coberturas do debate da TV Globo publicadas por Gazeta do Povo, Diario de Pernambuco, Itatiaia e Metrópoles em 23 de outubro de 2026.
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