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Quem saiu melhor no debate da Globo? Articulação, uso do tempo e os momentos que podem pesar no domingo

Lula chegou pressionado e saiu do último debate em vantagem, segundo boa parte dos analistas. Flávio manteve o foco no custo de vida, mas passou momentos na defensiva. Uma análise de desempenho, articulação e uso do tempo.

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O último debate antes de uma eleição tem um peso especial: é a imagem que fica na cabeça do eleitor indeciso a dois dias da urna. Na sexta-feira, 23 de outubro, Lula e Flávio Bolsonaro se enfrentaram na TV Globo, num formato mais rígido que o da Band, sem circular pelo estúdio, com mais tempo para propostas. Quem aproveitou melhor?

Uma ressalva antes: até a publicação deste texto, não havia medição oficial do tempo de fala de cada candidato, e as pesquisas que medem o efeito do debate ainda não saíram. O que segue é uma análise qualitativa, baseada no que foi dito e na avaliação de analistas.

Lula: experiência e perguntas que encurralam

Depois de um desempenho considerado mais fraco na Band, Lula chegou com estratégia clara: fazer perguntas diretas e cobrar respostas objetivas. O melhor exemplo foi sobre o reajuste de aposentados e beneficiários do BPC: “Vai ou não vai?” Lula também usou bem as réplicas para transformar ataques em contra-ataques, como no episódio do apelido ofensivo, em que exigiu, e obteve, um pedido de desculpas: “Você vai ter que pedir desculpa porque o povo trabalhador está vendo.”

No uso do tempo, Lula foi eficiente nas perguntas, curtas e com um alvo só, o que obriga o adversário a gastar o próprio tempo se defendendo. O ponto fraco foi a economia: defendeu o passado, como a valorização do mínimo e o Desenrola, mais do que apresentou plano para o futuro, e não respondeu à acusação de que o pacote de medidas de 2026 tem caráter eleitoral. Também chamou o adversário de “miliciano”, o que, embora tenha sido reação a um ataque, foi um insulto do mesmo nível.

Flávio: mensagem clara, mas tempo gasto na defesa

Flávio teve o mérito de manter o foco nos temas que mais incomodam o eleitor: custo de vida, dívidas e segurança. Frases como “Por que você endividou o povo brasileiro desse jeito?” e “Você vai voltar a ter dinheiro no bolso” falam diretamente ao bolso. Também mostrou postura de estadista em alguns momentos: prometeu governar com governadores de oposição e admitiu ter errado ao votar contra a ampliação da licença-maternidade.

O problema foi o tempo gasto se defendendo. Três momentos pesaram contra ele:

  1. O apelido ofensivo a Lula, que forçou um pedido de desculpas ao vivo: “Se eu te ofendi, então eu te peço desculpas de verdade.” A desculpa foi correta, mas o erro tirou o foco da mensagem econômica que ele tentava passar.
  2. O caso Ana Clara, menina de 5 anos morta por um tiro de fuzil em 2021, cujo policial acusado Flávio defendeu como advogado. Segundo colunistas, foi o momento mais difícil da noite para ele, justamente quando tentava falar ao eleitorado feminino.
  3. Perguntas sem resposta, como a cobrança por ter chamado o Bolsa Família de “bolsa-farelo”.

Quem foi mais articulado?

Na articulação, Lula levou vantagem: é um debatedor experiente, que domina o formato, controla o ritmo e sabe usar a réplica. Flávio foi mais claro na mensagem central, a de que o governo gastou demais e o brasileiro está endividado, mas se perdeu quando foi provocado. Boa parte dos analistas avaliou que Lula saiu do debate em vantagem e deixou Flávio na defensiva, revertendo a impressão deixada na Band.

Quem acompanha este blog conhece as minhas convicções liberais. Mas análise séria exige separar o que se defende do que se viu. E o que se viu foi um Lula mais eficiente no formato da TV e um Flávio com a mensagem econômica mais próxima do que o empresário quer ouvir, mas que deixou o adversário pautar parte da noite.

Isso muda o voto?

Raramente um debate vira uma eleição. Ele reforça convicções e pode mexer com a pequena fatia de indecisos. Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, uma diferença de cerca de 2,2 milhões de votos. Numa disputa tão apertada, qualquer ponto conta. A resposta final vem no domingo, 25 de outubro.

Em resumo

  1. Lula foi mais articulado e usou melhor as perguntas e réplicas, mas falou mais do passado do que do futuro.
  2. Flávio teve a mensagem mais clara sobre custo de vida e dívidas, mas gastou tempo se defendendo.
  3. O apelido ofensivo e o caso Ana Clara foram os momentos mais difíceis para Flávio.
  4. Boa parte dos analistas viu Lula em vantagem no último debate.
  5. Com diferença de cerca de 2 pontos no primeiro turno, o efeito real só será conhecido no domingo.

Texto de análise e opinião do autor, com base nas coberturas da Gazeta do Povo, do Metrópoles, do Estado de Minas, do Diario de Pernambuco e da Itatiaia. Não havia, até a publicação, medição oficial do tempo de fala dos candidatos.

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