Vou ser direto, porque este não é um dia para meias palavras: o Brasil escolheu o atraso. Com 51,78% dos votos válidos, Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito neste domingo, 25 de outubro, e vai governar o país até 2030. O resultado é legítimo e será respeitado. Mas respeitar não é aplaudir. E eu não vou aplaudir.
Este texto é de opinião, e não tem a pretensão de ser neutro. Como economista, como liberal e como alguém que convive todos os dias com empresários que carregam este país nas costas, eu considero esta reeleição um erro grave. E os números já começaram a me dar razão.
O mercado não esperou nem a segunda-feira
Bastaram algumas horas depois do resultado para o veredito chegar. Segundo a Bloomberg Línea e o InfoMoney:
- O dólar futuro saltou cerca de 10% em Chicago, para perto de R$ 5,52. Na sexta-feira, estava perto de R$ 5,00.
- O fundo de Ibovespa negociado em Tóquio desabou 13% logo na abertura.
- O EWZ, principal fundo de ações brasileiras nos Estados Unidos, afundou quase 20% fora do horário regular.
- Analistas projetam queda de mais de 5% do Ibovespa e falam abertamente em risco de circuit breaker.
Todo o otimismo de outubro, quando a bolsa bateu recorde e o dólar caiu, foi embora numa noite. Isso não é “especulação” nem “terrorismo do mercado”, como o governo gosta de dizer. É gente colocando o próprio dinheiro onde está a própria opinião. E a opinião é clara: o Brasil ficou mais arriscado.
Mais quatro anos do mesmo erro
O mercado não está com medo do desconhecido. Está com medo do que já conhece.
Um governo que gasta como se não houvesse amanhã. Só em 2026, ano eleitoral, foram entre R$ 215 bilhões e R$ 354 bilhões em bondades, conforme o levantamento, como mostrei em Pacote de bondades: quem paga a conta. A dívida bruta caminha de 83,6% para 88,2% do PIB, segundo o Bradesco BBI. A própria Instituição Fiscal Independente, do Senado, já avisa que a meta fiscal de 2027 corre risco. A festa foi paga com cartão de crédito. A fatura chega agora.
Juros na lua por culpa do próprio governo. A Selic está em 13,75% porque o Banco Central precisa compensar, com juros, o descontrole que o governo produz com gasto. Agora, com o dólar subindo, vem inflação importada, e com ela a perspectiva de juros altos por ainda mais tempo. Quem paga? O empresário que precisa de capital de giro, o pai de família que financia a geladeira e o trabalhador que vê o salário comprar menos no supermercado. Expliquei esse mecanismo em Por que a Selic está tão alta.
Um Estado que quer decidir tudo. Crédito direcionado, banco público escolhendo vencedores, estatal usada como braço político, imposto subindo para sustentar a máquina. É o modelo que fracassou em 2014 e 2015, quando o Brasil viveu a pior recessão da sua história. E é o modelo que acabou de ganhar mais quatro anos.
A Lava Jato não foi um sonho
Há uma tentativa permanente de reescrever a história recente do Brasil. Por isso vale lembrar os fatos, um por um:
- Lula foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá, em primeira instância.
- A condenação foi confirmada e a pena aumentada pelo TRF-4 em 2018, por unanimidade.
- Ele passou 580 dias preso em Curitiba.
- Em 2021, o STF anulou as condenações, não porque tenha julgado as provas falsas, mas porque decidiu que a vara de Curitiba não era competente para julgar o caso e que o juiz foi parcial.
- Os processos nunca voltaram a ser julgados no mérito. Parte deles simplesmente prescreveu.
Hoje, juridicamente, Lula não tem condenação válida. Mas também nunca foi absolvido. Ele não foi declarado inocente por um tribunal que examinou as provas; ele foi beneficiado por uma anulação processual. São coisas muito diferentes, e o brasileiro tem o direito de saber a diferença.
E o esquema que a Lava Jato revelou não foi anulado por ninguém. A própria Petrobras reconheceu, no seu balanço, R$ 6,2 bilhões em perdas com corrupção. Empreiteiros confessaram. Dinheiro foi devolvido aos cofres públicos. Isso aconteceu, sob governos do PT, dentro de uma estatal. E agora, com a polêmica do caso Roberta Luchsinger e as investigações sobre descontos indevidos de aposentados no INSS, ainda em andamento e sem denúncia até aqui, o país escolheu entregar mais quatro anos de poder ao mesmo grupo político.
Por que o eleitor caiu nessa
Frederic Bastiat escreveu, há quase dois séculos, sobre “o que se vê e o que não se vê”. Esta eleição foi decidida pelo que se vê: o desconto na gasolina, o Pix para o MEI, o aumento do Bolsa Família anunciado às vésperas da votação. O que não se vê é o juro que vai encarecer o financiamento, o imposto que vai subir, a inflação que vai corroer o salário e o emprego que não vai ser criado porque o empresário desistiu de investir.
Não culpo o trabalhador que votou pensando no próprio bolso de curto prazo. Culpo um governo que transformou o ano eleitoral numa vitrine de bondades pagas com o dinheiro do próprio eleitor. O eleitor recebeu o presente com uma mão; com a outra, vai pagar a conta, com juros.
O que Mises diria
Ludwig von Mises explicou que o intervencionismo não é um meio-termo estável entre o mercado e o socialismo. É uma ladeira. Cada intervenção cria um problema novo, e o governo responde com outra intervenção. Crédito subsidiado gera inflação; a inflação exige juros altos; os juros altos quebram empresas; as empresas quebradas pedem socorro; o socorro vira mais gasto; e o gasto pede mais imposto. Nós já vimos esse filme. O Brasil acaba de comprar ingresso para a sessão seguinte.
Hayek alertou que o caminho do Estado que tudo controla é o caminho da servidão. Não porque alguém planeje a servidão, mas porque cada nova dependência do governo tira um pouco da liberdade de quem produz. O MEI que depende do Pix do governo, a empresa que depende do crédito do banco público e a família que depende do benefício deixam de ser cidadãos livres para virar clientes do poder.
E agora, empresário?
Não espere o governo te salvar. Ele é parte do problema. O mercado vai cobrar três coisas nas próximas semanas: quem vai comandar a economia, se haverá um plano de verdade para conter a dívida e se o governo vai conseguir alguma coisa num Congresso onde não tem maioria. Eu, sinceramente, não tenho muita esperança nas três respostas.
Enquanto isso, proteja o seu negócio: reforce o caixa, não assuma dívida longa e cara sem necessidade, fique de olho nos insumos que dependem do dólar e converse com o seu contador e o seu gerente antes de qualquer decisão grande. Em tempos de governo grande, quem tem caixa sobrevive. Quem depende do Estado fica à mercê dele.
A minha conclusão
O Brasil teve a chance de mudar de rumo e escolheu continuar no mesmo caminho: mais Estado, mais gasto, mais dívida, juros mais altos e menos liberdade para quem produz. O mercado já deu o seu recado. A economia vai dar o dela, com atraso, como sempre faz.
Eu vou continuar aqui, escrevendo, explicando e denunciando cada real gasto sem critério. Porque, como sempre digo ao meu filho: seja um ser pensante, não um ser pensado. Daqui a quatro anos, o brasileiro vai ter outra chance. Que ele chegue lá sabendo exatamente quanto custou esta escolha.
Artigo de opinião do autor. Resultado eleitoral conforme o TSE; dados de mercado da Bloomberg Línea e do InfoMoney de 25 de outubro de 2026, referentes a negociações fora do horário da B3, que podem não se confirmar na abertura. As condenações citadas foram anuladas pelo STF em 2021; as investigações mencionadas seguem em andamento, e todos têm direito à presunção de inocência. Este conteúdo não é recomendação de compra ou venda de ativos.
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