Desconto na gasolina, perdão de dívidas do MEI, Pix de até R$ 5 mil para microempreendedor, aumento do Bolsa Família, novo Desenrola, crédito para caminhão, trator e carro de aplicativo, isenção do Imposto de Renda. Em pouco mais de um ano, a lista de “bondades” anunciadas pelo governo não para de crescer. E ela cresce mais rápido justamente quando a eleição se aproxima: o pacote para o MEI foi anunciado em 13 de outubro, doze dias antes do segundo turno.
Cidadão brasileiro, empresário, leitor deste blog: essa conta tem nome e endereço. É você que vai pagar.
Quanto custa o pacote
Depende de quem faz a conta, e é importante entender por quê:
- R$ 354 bilhões, segundo o Gastômetro do Estadão, somando todas as medidas do terceiro mandato, incluindo linhas de crédito, subsídios setoriais e programas fora do orçamento.
- Cerca de R$ 271 bilhões injetados na economia só em 2026, segundo levantamento da CNN Brasil.
- Pelo menos R$ 260 bilhões em 2026, segundo O Globo.
- R$ 215 bilhões de impacto expansionista em 2026, segundo estudo do economista Marcos Mendes, do Insper.
Os números são diferentes porque misturam coisas diferentes: gasto direto, renúncia de impostos e crédito subsidiado de bancos públicos. Crédito não é gasto no sentido estrito, porque em tese volta. Mas, quando o crédito sai de banco público com juros abaixo do mercado, alguém banca a diferença. E, como sempre, esse alguém é o contribuinte.
O governo nega o caráter eleitoral. Diz que as medidas protegem empregos, respondem às tarifas americanas, à alta do petróleo e ao El Niño, e que parte delas é neutra para as contas, como a isenção do IR, compensada pelo imposto mínimo sobre altas rendas. É o argumento oficial, e o leitor deve conhecê-lo.
Por que a conta chega para você
Governo não produz riqueza. Todo real que ele distribui saiu antes do bolso de alguém, ou vai sair depois. Só existem três formas de pagar essa conta:
- Mais impostos, como a taxação de dividendos e o IVA perto de 28% da reforma tributária, que já analisei aqui.
- Mais dívida, que exige juros altos para ser rolada. É por isso que a Selic está em 13,75% e o empresário paga caro pelo crédito, como mostrei no texto Selic alta: tomar crédito agora ou esperar?
- Mais inflação, o imposto silencioso que corrói o salário de quem não tem como se proteger, tema do texto sobre inflação segundo a Escola Austríaca.
A própria Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado, já alerta para o risco de descumprimento da meta fiscal de 2027 e estima a necessidade de congelar R$ 35,7 bilhões no orçamento do ano que vem. O reajuste do Bolsa Família nem estava previsto no projeto de orçamento. Ou seja: a festa é em 2026; a ressaca, em 2027.
Bastiat chamaria isso de “o que se vê e o que não se vê”. Vê-se o desconto na bomba de gasolina e o Pix na conta do MEI. Não se vê o juro mais alto no financiamento da empresa, o imposto que vai subir e a inflação que vai comer o poder de compra nos próximos anos.
E se o resultado for outro no dia 25?
O mercado financeiro já está apostando. Depois do primeiro turno, o Ibovespa bateu recorde acima de 200 mil pontos, o dólar caiu para perto de R$ 4,95 e os juros futuros recuaram ao menor nível desde 2008. Os mercados de previsão chegaram a dar cerca de 80% de chance de vitória a Flávio Bolsonaro.
A leitura dos investidores é clara: a expectativa de um governo com mais disciplina fiscal reduz o risco do país. Se essa expectativa se confirmar nas urnas e, depois, num plano fiscal crível, o cenário que muitos analistas desenham é este:
- Juros longos em queda, porque o prêmio de risco cobrado para financiar o governo diminui.
- Espaço para o Banco Central cortar a Selic com mais segurança, se as expectativas de inflação melhorarem.
- Bolsa em alta, com bancos internacionais como Morgan Stanley e BTG traçando cenários otimistas de forte valorização.
Eu acredito nesse cenário. Mas é preciso ser honesto com o leitor: boa parte dele já está no preço. O mercado antecipa. Se Flávio vencer, parte da alta pode já ter acontecido; se Lula vencer, analistas alertam que boa parte do rali pode ser devolvida. E, mesmo com Flávio eleito, o mercado vai cobrar um plano fiscal concreto e medidas impopulares. Promessa sem execução vira decepção rápido.
Quais setores ganham com juros mais baixos
Se os juros longos caírem de forma consistente, os setores mais sensíveis a juros tendem a ser os mais beneficiados. São eles que os analistas costumam apontar:
- Construção civil e incorporadoras. Dependem de financiamento imobiliário de longo prazo, tanto para construir quanto para vender. Juro menor significa parcela menor para o comprador e custo menor para a construtora.
- Varejo e shoppings. Vivem do crédito ao consumidor e costumam ter dívidas relevantes.
- Empresas endividadas e em recuperação, que ganham fôlego quando o custo da dívida cai.
- Infraestrutura e concessões, que dependem de financiamento longo e de regras previsíveis.
No sentido oposto, exportadoras tendem a sofrer com um real mais forte, porque recebem em dólar e gastam em reais.
Uma regra de ouro para quem pensa em investir com base na eleição: não aposte tudo num único resultado. Decisão de investimento deve considerar o seu perfil, o seu prazo e o seu objetivo, e não apenas a torcida. Converse com um assessor ou com o seu gerente antes de mudar a carteira.
A minha leitura
Gastar bilhões de reais em ano eleitoral não é exclusividade de um partido; é uma tentação de todo governo. Mas a escala de agora é difícil de ignorar, e a aposta parece cada vez mais arriscada para quem a faz, com as pesquisas apontando empate ou Flávio à frente. O problema é que, ganhe quem ganhar, a fatura das bondades de 2026 fica. Ela vai aparecer no orçamento de 2027, nos juros e na inflação.
Um governo que queira de fato baixar os juros e fazer a economia crescer precisa fazer o caminho inverso: gastar menos, gastar melhor e deixar que o empresário, e não o Estado, decida onde investir. Esse é o recado que o mercado tem dado nas últimas semanas. E é o que eu espero ver a partir de 2027.
Em resumo
- As medidas anunciadas pelo governo somam de R$ 215 bilhões a R$ 354 bilhões, conforme o critério de cada levantamento.
- A conta é paga com impostos, dívida ou inflação, e a IFI já vê risco para a meta fiscal de 2027.
- O mercado aposta numa vitória de Flávio, com bolsa recorde e juros futuros em queda, mas boa parte disso já está no preço.
- Se os juros longos caírem, construção civil, varejo, shoppings e empresas endividadas tendem a ganhar mais.
- Investir apostando num resultado eleitoral é arriscado: diversificação e orientação profissional vêm antes da torcida.
Texto de análise e opinião do autor, com base em levantamentos do Estadão, O Globo, CNN Brasil, Insper, IFI e em análises de mercado publicadas pelo InfoMoney. Este conteúdo não é recomendação de compra ou venda de ativos; rentabilidade passada não garante rentabilidade futura.
Deixe um comentário