Setembro trouxe a maior inflação para o mês desde 2021: o IPCA subiu 0,82% e fechou 12 meses em 4,58%, acima do teto da meta. Ao mesmo tempo, a Selic vem caindo: saiu de 15% no começo do ano para 13,75%. A pergunta que mais ouço dos empresários é uma só: tomo crédito agora ou espero?
Antes de responder, preciso fazer algo que pouca gente faz: explicar por que a Selic existe e por que ela está onde está. Quem entende isso toma decisões melhores, com ou sem juros altos.
O que esperar do Copom em novembro
O Copom volta a se reunir nos dias 3 e 4 de novembro. O mercado, pelo Boletim Focus, aposta em mais dois cortes de 0,25 ponto, em novembro e dezembro, levando a Selic a 13,25% no fim do ano. O argumento é que a inflação de setembro veio de choques pontuais, como a conta de luz, as passagens aéreas e os alimentos, e que a economia já está desacelerando.
Eu não descartaria uma surpresa. A projeção de inflação para 2026 subiu pela quarta semana seguida e já está em 5,22%; a de 2027, em 4,30%, longe do centro da meta de 3%. Com a inflação acima do teto, o Banco Central fica sob pressão para interromper os cortes, e não faltam argumentos técnicos para isso. Uma alta, contrariando a maioria dos economistas, é o cenário menos provável, mas não é impossível se as expectativas continuarem piorando. O recado para o empresário é: não conte com juro baixo tão cedo. Mesmo com cortes, vamos terminar o ano com um dos juros reais mais altos do mundo.
Por que existe a Selic, segundo a Escola Austríaca
Já falei disso em outros textos, mas vale repetir, porque é a base de tudo.
Juro é o preço do tempo. É quanto alguém cobra para abrir mão do dinheiro hoje e recebê-lo depois. Num mercado livre, esse preço nasceria do encontro entre quem poupa e quem quer investir: muita poupança, juro baixo; pouca poupança, juro alto. É um sinal honesto sobre quanto de recurso real a economia tem disponível.
A Selic é outra coisa. É um preço fixado por um comitê, o Copom, que se reúne oito vezes por ano e decide quanto deve custar o dinheiro no país inteiro. Para os austríacos, isso é planejamento central do preço mais importante da economia. E, como todo preço tabelado, ele erra: quando fica baixo demais, cria uma farra de crédito que termina em crise; quando fica alto demais, sufoca quem produz.
Quem ganha com a Selic alta
Aqui está o ponto que quase ninguém conta.
- O governo, que critica, mas depende dela. Em público, o governo pede juros mais baixos. Na prática, é o gasto público acima da arrecadação que obriga o Banco Central a manter a Selic nas alturas. Um governo que gasta muito precisa se financiar vendendo títulos da dívida, e quem compra esses títulos exige juros altos para emprestar a um devedor que não dá sinais de arrumar as contas. A Selic alta é o preço que o país paga para financiar o gasto do governo.
- O investidor estrangeiro. Com juros de 13,75% aqui e bem menores lá fora, o capital estrangeiro vem ganhar a diferença, a famosa operação de carry trade. Esse dinheiro ajuda a segurar o dólar e a financiar a dívida pública. Mas é um capital de curto prazo: vai embora no primeiro susto.
- Quem já tem dinheiro aplicado. O rentista ganha sem correr risco de empreender. Quando um título público paga mais do que o lucro de uma fábrica, o país está premiando quem empresta ao governo e punindo quem produz.
E quem perde? Quem gera emprego. O pequeno, o médio e o grande empresário que precisam de crédito para comprar máquina, formar estoque, contratar e crescer. Juro baixo e estável, nascido de contas públicas em ordem e de poupança real, é o melhor ambiente para quem empreende. Juro baixo artificial, imposto por decreto, não: esse só adia a conta. A diferença entre os dois é o que separa a Escola Austríaca do discurso de quem só pede que o BC “baixe os juros”.
Então, tomo crédito ou não?
Depende de uma conta simples: o dinheiro vai render mais do que custa? Com a Selic a 13,75%, crédito só faz sentido quando tem destino certo e retorno claro. Alguns critérios práticos:
- Crédito para produzir, sim; para tapar buraco, com muito cuidado. Capital de giro para atender um pedido que já está fechado é investimento. Capital de giro para cobrir prejuízo recorrente é adiar o problema pagando juros.
- Prazo casado com o uso. Necessidade de curto prazo, crédito de curto prazo. Compra de máquina, financiamento longo. Usar cheque especial ou conta garantida para investimento é o erro mais caro que vejo.
- Pré ou pós-fixado faz diferença. Com cortes esperados, o pós-fixado tende a ficar mais barato com o tempo; se a inflação surpreender e os cortes pararem, o pré dá previsibilidade. Expliquei os dois em detalhe no texto Precisa de crédito com a Selic alta?
- Compare o Custo Efetivo Total (CET), não só a taxa. Tarifas, seguros e IOF entram na conta.
- Nem toda necessidade se resolve com empréstimo. É aí que entra a próxima parte deste texto.
O empresário e o entendimento raso de economia
Vou dizer com carinho, porque é o que vejo do outro lado da mesa todos os dias: a maioria dos empresários entende muito do próprio negócio e muito pouco de economia. Sabe o preço de cada insumo, mas não sabe como a Selic chega ao seu fluxo de caixa. Sabe vender, mas não sabe se o empréstimo que está tomando faz sentido.
Isso não é defeito. O empresário não tem tempo para acompanhar Copom, Focus e curva de juros. É por isso que ele precisa de quem acompanhe por ele. E é por isso que o papel do gerente de banco precisa ser consultivo: organizar a cabeça do empresário antes de oferecer qualquer coisa.
“Bancário só pensa em bater meta”
Já ouvi essa frase muitas vezes. Metas existem, e produto bancário faz parte do jogo. Mas o bom profissional vem antes de qualquer meta. Ele sabe que um cliente mal orientado hoje é um cliente perdido amanhã.
E tem uma verdade que poucos dizem em voz alta: banco é tudo igual. Uns são vermelhos e brancos, outros laranja, outros azuis e brancos, outros roxos e amarelos. Os produtos são praticamente os mesmos, os aplicativos se parecem e as taxas andam perto umas das outras. O que diferencia um banco do outro não é a cor. É quem atende você: o gerente que conhece o seu nicho, entende a sua empresa e pensa na sua decisão antes de pensar no produto.
Produto certo para o objetivo certo
Bem usado, o produto bancário é ferramenta de crescimento. Alguns exemplos de como ele resolve problemas reais, especialmente com a Selic alta:
- Consórcio para adquirir um veículo, uma máquina ou um imóvel para a empresa sem pagar juros. Tem taxa de administração e não tem data certa de contemplação, então serve para quem planeja, não para quem tem pressa. Mas, com a Selic onde está, a diferença no custo final pode ser enorme.
- Seguro de vida pensado para a proteção patrimonial e a sucessão da empresa. Com o imposto sobre herança ficando mais pesado depois da reforma tributária, planejar a sucessão deixou de ser luxo.
- Consultoria de investimentos para o caixa parado render melhor. Com juros altos, dinheiro esquecido na conta corrente é prejuízo todo dia.
- Capital de giro direcionado, com objetivo definido e prazo adequado, em vez de linhas genéricas e caras.
- Crédito de curto prazo, como antecipação de recebíveis, para ajustar o fluxo de caixa quando o cliente paga em 60 dias e o fornecedor cobra em 30.
A regra vale para os dois lados: o gerente deve oferecer o que resolve, e o empresário deve recusar o que não precisa. Produto empurrado sem objetivo vira custo, não solução.
A tríade de toda empresa
Toda empresa bem conduzida tem ao lado três profissionais de confiança:
- O contador, que cuida dos números, dos impostos e do regime tributário.
- O advogado, que protege contratos, patrimônio e decisões.
- O gerente de banco, que organiza o crédito, o caixa, os investimentos e a proteção do patrimônio.
Os três se completam. O empresário que conversa com os três antes de uma grande decisão erra muito menos, principalmente num ano de juros altos, inflação teimosa e reforma tributária chegando.
Cinco perguntas para fazer ao seu gerente antes de tomar crédito
- Qual é o Custo Efetivo Total dessa operação?
- Para a minha necessidade, pré ou pós-fixado faz mais sentido? Por quê?
- Existe uma alternativa sem juros, como consórcio ou antecipação de recebíveis?
- Se a Selic cair (ou subir) nos próximos meses, o que acontece com a minha parcela?
- Este prazo combina com o tempo que o investimento leva para dar retorno?
Se o seu gerente responde com clareza, você está bem atendido. Se ele só fala de produto e taxa, procure outro, seja qual for a cor do banco.
Em resumo
- A Selic está em 13,75%, e o mercado espera cortes até 13,25%, mas a inflação acima do teto pode fazer o Banco Central parar.
- Para a Escola Austríaca, juro é o preço do tempo e deveria nascer da poupança, não de um comitê.
- A Selic alta é consequência do gasto público e beneficia quem empresta ao governo; quem produz paga a conta.
- Crédito com juros altos só vale com destino certo, prazo casado e retorno maior que o custo.
- Banco é tudo igual; o que faz diferença é o gerente consultivo, que forma com o contador e o advogado a tríade de toda empresa.
Texto de análise e opinião do autor. Dados do IPCA (IBGE), da decisão do Copom de setembro e do Boletim Focus de 13 de outubro de 2026. Este conteúdo não é recomendação de contratação de nenhum produto financeiro.
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