No primeiro e mais esperado confronto direto do segundo turno, na noite de domingo, 18 de outubro, na Band, Lula e Flávio Bolsonaro trocaram acusações, interrupções e pedidos de direito de resposta. Mas, no meio do barulho, a economia apareceu. E é dela que este blog trata. O que cada um prometeu? E o que um economista da Escola Austríaca diria de cada proposta?
O que Flávio propôs
- Diagnóstico: atribuiu os juros altos aos gastos do governo e falou numa dívida pública de R$ 11 trilhões. “Essa dívida não é sua, essa dívida é do atual governo.”
- Comprar as dívidas das famílias: o governo compraria dos bancos, com desconto, as dívidas de famílias e empresas, com carência de seis meses para pessoas físicas e um ano para empresas. “No meu governo, a gente vai comprar a sua dívida dos bancos.”
- Espaço no orçamento: prometeu abrir “um espaço no orçamento de mais de 200 bilhões de reais”. “Vou ajudar você a pagar sua dívida, e vou ajudar o governo a pagar a própria dívida.”
- Ministério da Prosperidade e Caixa: a Caixa viraria um banco voltado ao empreendedorismo nas periferias, “o Itaú das favelas, ou o Bradesco das periferias”, nas palavras dele.
O que Lula propôs
- Diagnóstico: “A melhor forma de você resolver o problema da dívida desse país é a economia voltar a crescer”, disse, falando em crescimento de 4% a 5% ao ano.
- Consumo: “Nós precisamos, primeiro, fazer o dinheiro circular na mão das pessoas.”
- Salário mínimo e crédito: defendeu a valorização do mínimo e a ampliação do crédito.
- Nova economia: investimentos em indústria, tecnologia e nas economias digital, verde e criativa. Lembrou a criação do MEI e os 17,5 milhões de microempreendedores formalizados.
Os números ditos no debate
A dívida pública bruta do Brasil está perto de 83% do PIB, segundo os dados mais recentes, o que, em reais, fica na casa dos R$ 10 a 11 trilhões. A ordem de grandeza citada por Flávio, portanto, é compatível. Já a promessa de abrir mais de R$ 200 bilhões no orçamento não veio acompanhada de detalhes sobre de onde sairia esse dinheiro, num orçamento em que cerca de 93% das despesas são obrigatórias. Do lado de Lula, a meta de crescer 4% a 5% ao ano também não veio com um caminho claro: o Brasil não cresce nesse ritmo de forma sustentada há mais de uma década.
A lente austríaca sobre Lula
“Fazer o dinheiro circular na mão das pessoas” é a síntese do pensamento keynesiano: estimular o consumo para fazer a economia girar. O problema, para os austríacos, é que consumo não gera riqueza; a riqueza vem da produção, e a produção depende de poupança e investimento. Quando o governo injeta dinheiro na economia sem que a produção acompanhe, o resultado é inflação, como mostrei no texto sobre inflação segundo a Escola Austríaca. A inflação de 2026 já está acima do teto da meta.
Crescer 4% a 5% ao ano é desejável, mas não se consegue por decreto. Exige investimento, e investimento exige juros mais baixos, que exigem contas públicas em ordem. Foi o que eu discuti no texto Pacote de bondades: quem paga a conta.
A lente austríaca sobre Flávio
Aqui preciso ser coerente com o que defendo neste blog, mesmo sendo crítico do governo atual. O diagnóstico de Flávio é o mais próximo da visão austríaca: os juros estão altos porque o governo gasta demais. Concordo.
Mas duas propostas merecem ressalvas de qualquer liberal:
- Governo comprando dívidas. Quando o Estado compra a dívida das famílias, o dinheiro sai do contribuinte, inclusive daquele que se sacrificou para pagar as próprias contas em dia. Além disso, cria o que os economistas chamam de risco moral: se o governo socorre quem se endividou, a mensagem é que não vale a pena ser prudente. É a mesma lógica do Desenrola, que critiquei no texto sobre endividamento: trata o sintoma, não a doença.
- Caixa como banco do empreendedorismo. Para um austríaco, banco público direcionando crédito é o governo escolhendo vencedores, com o risco de usar critérios políticos no lugar dos técnicos. O empreendedor da periferia precisa de crédito, sim, mas o que mais o ajudaria é juro baixo para todos, menos impostos e menos burocracia.
A diferença é que o diagnóstico de Flávio aponta para o lugar certo: o gasto público. Se o governo dele de fato cortar despesas, como diz a coordenação da campanha, os juros caem para todos, e isso faz mais pelas famílias endividadas do que qualquer programa de compra de dívidas.
A minha leitura
Na economia, o debate mostrou duas visões opostas. Lula aposta no gasto e no consumo para fazer a economia crescer. Flávio aposta no controle do gasto para baixar os juros. A segunda está mais perto do que a Escola Austríaca defende, e mais perto do que o empresário precisa. Mas, nos dois casos, faltaram números, fontes e o caminho para cumprir o que foi prometido. Promessa de campanha é fácil. O que importa é o orçamento de 2027.
Em resumo
- Flávio culpou o gasto do governo pelos juros e prometeu comprar dívidas das famílias e abrir R$ 200 bilhões no orçamento.
- Lula defendeu fazer o dinheiro circular, valorizar o mínimo e crescer 4% a 5% ao ano.
- Para a Escola Austríaca, consumo estimulado pelo governo gera inflação, não riqueza.
- O diagnóstico de Flávio é o mais liberal, mas a compra de dívidas e o uso da Caixa merecem ressalvas.
- Nos dois lados, faltou explicar como pagar as promessas.
Texto de análise e opinião do autor, com base nas coberturas do debate da Band publicadas por InfoMoney, ND Mais e BP Money em 18 de outubro de 2026.
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