Debate de segundo turno é vitrine de promessas. No confronto da Band, no domingo, 18 de outubro, Lula e Flávio Bolsonaro falaram muito de segurança, saúde e relações com os Estados Unidos. Como este é um blog de economia, faço a pergunta que quase nunca aparece na TV: quanto custa cada promessa, e quem paga?
Segurança pública
Flávio prometeu classificar PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações narcoterroristas, criar 500 mil vagas no sistema prisional, ampliar o uso de inteligência artificial no monitoramento de criminosos, reduzir a maioridade penal para 14 anos em crimes graves e adotar a castração química de estupradores. “Eu vou recuperar cada metro, eu vou recuperar cada rua, eu vou recuperar cada bairro.”
Lula defendeu a aprovação da PEC da Segurança Pública e a criação de um ministério específico. “Para o trabalhador e para a comunidade, proteção; para o bandido, prisão.” Os dois divergiram sobre as saídas temporárias de presos: Flávio quer restringi-las; Lula disse que “não é porque um cidadão saiu e cometeu um erro que você vai punir milhares de pessoas”.
A conta: 500 mil vagas significam construir e manter o equivalente a centenas de novos presídios, com custo de construção e, principalmente, de manutenção de cada preso por anos. Um ministério novo, por sua vez, significa mais estrutura e mais cargos. Nenhum dos dois disse quanto isso custa nem de onde viria o dinheiro.
O olhar econômico: segurança é uma das poucas funções que até os liberais mais radicais reconhecem como papel do Estado: proteger a vida e a propriedade, como defendia Bastiat em A Lei. E a insegurança tem um custo econômico enorme: comércio que fecha mais cedo, empresas que não se instalam em certas regiões, gastos com segurança privada. Um Estado que gastasse menos com o que não é sua função teria mais dinheiro para o que é.
Saúde
Flávio prometeu levar o “padrão Einstein” ao SUS e anunciou o convite a Claudio Lottenberg, ligado ao Hospital Israelita Albert Einstein, para comandar o Ministério da Saúde. “O SUS vai ser padrão Einstein, porque você merece.” Lula reagiu: “Será que ele quer privatizar o SUS?”, e criticou a gestão da pandemia no governo de Jair Bolsonaro.
A conta: “padrão Einstein” é uma excelente frase de campanha, mas um hospital de excelência custa por paciente muitas vezes mais do que o SUS gasta hoje. Elevar o sistema inteiro a esse padrão exigiria um aumento de recursos que nenhum orçamento comporta. O ganho realista está na gestão: o mesmo dinheiro bem gerido, com metas, transparência e parcerias com o setor privado, pode render muito mais. Esse é o ponto que merece ser cobrado.
Sobre a pergunta de Lula: parceria com o setor privado não é sinônimo de privatização. Organizações sociais já administram hospitais públicos em vários estados, inclusive em governos do PT. O debate sério é sobre resultados, não sobre rótulos.
Política externa e tarifaço
Lula cobrou explicações sobre a relação da família Bolsonaro com Donald Trump e perguntou sobre os minerais críticos brasileiros: “Vocês têm pretensão de entregar isso para os Estados Unidos?”. Flávio negou ter atuado a favor das tarifas americanas sobre produtos brasileiros, “Ninguém trabalhou para tarifar empresa brasileira”, e defendeu cooperação internacional contra o narcotráfico.
O olhar econômico: para o exportador, o que importa é previsibilidade e acesso a mercados. As tarifas americanas atingiram empresas brasileiras de verdade, e qualquer governo eleito terá de negociar com Washington. Ao mesmo tempo, o Brasil acaba de abrir a porta da Europa com o acordo Mercosul–UE. A melhor política externa econômica é a que diversifica mercados, sem alinhamento automático a ninguém.
A minha leitura
Fora da economia, os dois candidatos fizeram o que se espera num debate: prometeram muito e explicaram pouco. As propostas de Flávio na segurança são mais duras e falam diretamente ao medo de quem vive em áreas dominadas pelo crime. As de Lula apostam em estrutura e instituições. Em ambos os casos, a pergunta que o eleitor deveria fazer é a mesma que o empresário faz antes de qualquer investimento: quanto custa, de onde vem o dinheiro e qual é o resultado esperado? Não existe almoço grátis, nem em segurança, nem em saúde.
Em resumo
- Flávio prometeu 500 mil vagas prisionais, facções tratadas como narcoterroristas e maioridade penal de 14 anos em crimes graves.
- Lula defendeu a PEC da Segurança e um ministério próprio para a área.
- O “SUS padrão Einstein” esbarra no custo; o ganho realista está na gestão.
- Na política externa, o exportador precisa de previsibilidade e de mercados diversificados.
- Nenhum dos dois explicou quanto custam as promessas nem de onde virá o dinheiro.
Texto de análise e opinião do autor, com base na cobertura do debate da Band publicada pelo InfoMoney em 18 de outubro de 2026.
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