Em agosto, a inadimplência das famílias brasileiras chegou a 6%, o maior nível desde 2011, segundo o Banco Central. O juro do rotativo do cartão passou de 440% ao ano. Ao mesmo tempo, o número de empresas em recuperação judicial bateu o recorde da série histórica da Serasa Experian, iniciada em 2012. Esses números não são coincidência. São a mesma história contada de dois lados da mesma mesa.
Com a minha atividade principal, eu analiso pedidos de crédito de empresas. Neste texto, quero mostrar o que esses números significam visto de dentro, e por que, pela ótica da Escola Austríaca, as soluções oferecidas até agora atacam o sintoma, e não a doença.
Uma corrente: empresa endividada, família endividada
Costumamos tratar o endividamento das famílias e o das empresas como problemas separados. Não são. Quando a empresa aperta, o sócio aperta. Quando o sócio aperta, a família aperta. E, na outra ponta, quando o consumidor está endividado, ele compra menos, atrasa pagamentos, e o caixa da empresa sente.
No Brasil, essa corrente tem um elo ainda mais frágil: a mistura entre o dinheiro da empresa e o dinheiro da família. É um dos erros que mais vejo. O empresário paga a escola dos filhos com o cartão da empresa, cobre o caixa da empresa com o cheque especial da pessoa física, retira dinheiro sem critério quando o mês é bom. O resultado é que ninguém sabe, de verdade, se o negócio dá lucro. E quando a crise chega, ela atinge as duas pontas ao mesmo tempo.
O que vejo do outro lado da mesa de crédito
Uma análise de crédito vai muito além da conversa com o empresário. Os bancos cruzam o que o cliente declara com o histórico dele no mercado, com bases de consulta externas e com estudos sobre o setor em que ele atua. A entrevista serve para entender a saúde financeira do negócio, mas os dados de mercado mostram o que a entrevista às vezes esconde.
E esconde com frequência. Não é raro o empresário omitir dívidas em outras instituições, que aparecem nas consultas. Quando o retrato completo mostra uma empresa muito alavancada, com dívidas acima do que o caixa consegue pagar, a resposta do comitê de crédito costuma ser não. Não por má vontade, mas porque emprestar mais a quem já não consegue pagar é empurrar o problema para frente, com juros.
Outro retrato comum é o das estruturas montadas para pagar menos imposto: empresas abertas em nome de parentes ou terceiros, faturamento dividido entre vários CNPJs. O mercado financeiro aprendeu a enxergar isso, e analisa esses grupos como um conjunto. Mas a existência dessas estruturas diz muito sobre o ambiente de negócios no país.
E há um padrão que me preocupa cada vez mais: empresas que, na prática, já não dão lucro. Elas se mantêm rolando dívidas, maquiando resultados e se apoiando numa estrutura da qual não conseguem mais sair. Algumas aguentam por anos. Outras chegam ao limite e pedem recuperação judicial para renegociar com os credores.
O sócio que nunca perde
Em quase toda conversa com empresários, aparece a mesma queixa: o Estado é um sócio que entra com a mão estendida e sai com a parte dele, tenha a empresa lucro ou prejuízo. Impostos sobre o faturamento, sobre a folha, sobre o consumo. A empresa pode quebrar, mas o tributo sobre a venda já foi recolhido.
Murray Rothbard, um dos nomes mais radicais da Escola Austríaca, levou essa crítica ao limite com uma frase que ficou famosa: “imposto é roubo”. Para Rothbard, a tributação é uma apropriação forçada do fruto do trabalho alheio, e o Estado deveria ser reduzido ao mínimo. Mesmo quem não vai tão longe quanto ele reconhece o problema prático: quando o sócio Estado leva uma fatia grande demais, o empresário passa a gastar energia fugindo do imposto em vez de produzir. As estruturas com terceiros e CNPJs fragmentados são, em boa parte, uma resposta a esse ambiente. Não justificam a fraude, mas explicam por que ela é tão comum.
A lente austríaca: crédito não é renda
Para Mises e Hayek, o crédito é uma ponte entre a poupança de alguém e o investimento ou consumo de outra pessoa. Quando há poupança real por trás, o crédito financia produção e crescimento. Quando o crédito se expande além da poupança, estimulado por juros artificialmente baixos ou por programas de governo, ele cria uma ilusão: as pessoas consomem hoje uma renda que ainda não existe.
Cedo ou tarde, a conta chega. Dívida é consumo antecipado. Quem antecipou demais precisa, em algum momento, consumir menos para pagar. O endividamento recorde de hoje é, em boa parte, a fatura de anos de estímulo ao crédito somada a juros que agora estão entre os mais altos do mundo.
Por que o Desenrola não resolve
Programas de renegociação, como o Desenrola, têm um mérito real: dão fôlego a quem está com o nome negativado e permitem recomeçar. Mas, pelos próprios números do Banco Central, a inadimplência continuou batendo recordes mesmo depois das renegociações. Por quê?
- Renegociar não aumenta a renda. Se a família gasta mais do que ganha, a dívida renegociada volta a crescer.
- O nome limpo devolve acesso ao crédito caro. Sem educação financeira, muitos voltam ao rotativo e ao cheque especial, os juros mais altos do mercado.
- O custo do dinheiro continua alto. Enquanto o Estado gastar mais do que arrecada e mantiver os juros elevados, toda dívida nova nasce cara.
Os austríacos chamariam isso de tratar o sintoma. A doença é um Estado grande, caro e deficitário, que encarece o crédito para todos e tira renda de quem produz.
As recuperações judiciais e o momento político
Os números da Serasa Experian ajudam a dimensionar o problema. Em 2021 e 2022, mesmo no rescaldo da pandemia, os pedidos de recuperação judicial ficaram abaixo de mil por ano. Em 2024, mais de 2,2 mil empresas estavam envolvidas em pedidos, recorde da série. Em 2025, foram cerca de 2,5 mil, novo recorde.
Na minha leitura, isso reflete um ambiente que ficou mais hostil para quem empreende no atual governo: juros altos sustentados por um gasto público que não para de crescer, carga tributária pesada e pouca sinalização de alívio. É por isso que tantos empresários com quem converso dizem, sem rodeios, que a mudança é necessária.
É justo registrar o contraponto. Em 2020 e 2021, a Selic estava em mínimas históricas e programas emergenciais, como o Pronampe, adiaram problemas que só apareceram depois. O ciclo de alta dos juros começou ainda em 2021. Defensores do governo atual argumentam que a onda de recuperações é, em parte, a conta atrasada da pandemia. Os dados mostram, porém, que o problema não só persistiu como se agravou, e isso não pode ser explicado apenas pelo passado.
Também considero provável que, se o segundo turno confirmar a continuidade, o mercado financeiro reaja com desconfiança: mais prêmio de risco nos juros longos, dólar mais alto, crédito mais seletivo. Há quem chame isso de “boicote da Faria Lima”. Na prática, é o capital fazendo o que sempre faz: buscando segurança quando não confia na trajetória das contas públicas. E quem paga essa desconfiança, de novo, é a empresa que precisa de crédito.
O que o empresário pode fazer agora
- Separe o caixa da empresa do caixa da família. Defina um pró-labore fixo e retire só ele. Parece simples, mas é o primeiro passo para saber se o negócio dá lucro.
- Seja transparente com o banco. Omitir dívidas não funciona: elas aparecem nas consultas, e a omissão pesa mais contra você do que a própria dívida.
- Não use dívida nova para pagar dívida velha sem um plano. Rolar dívida cara só compra tempo, e tempo, com juros de hoje, custa muito.
- Peça ajuda antes do limite. Renegociar com credores cedo é sempre mais barato do que esperar a recuperação judicial.
O endividamento recorde não é falta de vontade de pagar. É o resultado de um país que cobra caro de quem produz, empresta caro a quem precisa e oferece renegociação como se fosse solução. Enquanto o sócio Estado não emagrecer, empresas e famílias vão continuar carregando uma conta que não é só delas.
Este texto é análise e opinião do autor, baseada em experiência profissional no mercado de crédito, sem referência a clientes ou instituições específicas. Não é recomendação de investimento.
Fontes
- Inadimplência das famílias atinge recorde em agosto (com dados do Banco Central)
- Inadimplência segue em patamar recorde mesmo com renegociações do Desenrola 2.0 (Folha PE)
- Brasil registra 2,2 mil pedidos de recuperação judicial em 2024, o maior da série (Serasa Experian)
- Recuperação judicial cresce em 2025 e atinge maior número desde 2012 (InfoMoney)
- Pedidos de recuperação judicial caem em 2022 (Serasa Experian)
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