A uma semana do segundo turno, a campanha ganhou um ingrediente que nenhum marqueteiro gosta de enfrentar: uma ex-amiga da família do presidente, investigada pela Polícia Federal, indo à televisão em horário nobre dizer que quer fazer delação premiada e que “não vai poupar ninguém”. Na noite deste sábado, 17 de outubro, a lobista Roberta Luchsinger deu entrevista exclusiva à CNN Brasil e mirou diretamente Lula e o filho dele, Fábio Luís, o Lulinha.
Neste texto, separo o que se sabe, o que é acusação e o que é investigação, e explico por que, na minha leitura, essa entrevista pode pesar muito no dia 25.
Quem é Roberta Luchsinger
Empresária e lobista de 41 anos, nascida em Miraí (MG), diretora de uma consultoria de intermediação de negócios. Ficou conhecida em 2017, quando anunciou a doação de R$ 500 mil em bens a Lula, a chamada “Bolsa Lula”, barrada pela Justiça. Em 2018, filiou-se ao PT e disputou, sem sucesso, uma vaga de deputada estadual em São Paulo. Durante anos, foi amiga próxima de Lulinha.
O que está sendo investigado
Segundo as reportagens publicadas até aqui, os fatos envolvendo Roberta e Lulinha são apurados em três inquéritos no Supremo Tribunal Federal. As principais suspeitas são:
- Tráfico de influência no Ministério da Saúde, ligado à venda de medicamentos à base de canabidiol, com participação também de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”.
- Operação Sem Desconto, que apura descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS, um esquema bilionário que atingiu milhões de aposentados. Nessa operação, Roberta foi alvo de busca e apreensão, bloqueio de bens e uso de tornozeleira eletrônica.
- Intermediação de verbas federais para estados e municípios, além de suposta atuação em negócios envolvendo o BNDES e um contrato da Petrobras com a petroquímica Unigel, que o TCU considerou lesivo e que acabou suspenso.
A Polícia Federal suspeita que Roberta e Lulinha mantinham uma “sociedade oculta” nos negócios. É importante deixar claro: até agora, ninguém foi denunciado ou condenado nesses casos. São investigações em andamento.
O que ela disse na CNN
- Que quer fazer delação premiada e que “não vai poupar ninguém”, nem Lula nem Lulinha.
- Que Lulinha se sentou “inúmeras vezes” com ministros e que o presidente sabia desses encontros.
- Que tem “detalhes” que vão além das mensagens de WhatsApp já conhecidas.
- Chamou Lula de “mau caráter, mentiroso e covarde” e disse que Lulinha virou “um covarde como o pai” por não defendê-la. “Eles são cúmplices, eu sou a vítima.”
- Ao mesmo tempo, negou ser sócia de Lulinha (“Eu não tenho atuação profissional com Lulinha”), negou ter recebido vantagens do governo e disse que nunca teve contrato público. Ironizou: “Eu não sou sócia do Lulinha, eu sou sócia do Lula”.
A resposta de Lula
Em nota, a Secretaria de Comunicação da Presidência afirmou que Lula “desconhece inteiramente os fatos relatados”, que “jamais manteve qualquer interlocução” com Roberta e que “não existe nenhum contrato do governo federal” com ela. A nota diz que “causa estranheza” que as declarações surjam “justamente às vésperas do segundo turno” e as classifica como “uma tentativa irresponsável de tumultuar o processo democrático”. Em agosto, Lula já havia chamado a lobista de “pilantra”.
Por que essa entrevista pode decidir a eleição
Uma delação ainda não existe, e acusação não é prova. Mas eleição não se decide nos tribunais, e sim na percepção do eleitor. E três fatores tornam essa entrevista especialmente perigosa para o presidente:
- O momento. Faltam oito dias para a votação, com as pesquisas mostrando empate técnico ou Flávio numericamente à frente. Numa disputa assim, um ponto percentual decide.
- A origem. A acusação não vem de um adversário, e sim de alguém de dentro: uma ex-filiada ao PT e amiga íntima da família. É o tipo de denúncia que o eleitor indeciso tende a levar a sério.
- O tema. A Operação Sem Desconto envolve dinheiro tirado de aposentados do INSS. Poucos assuntos ferem tanto a imagem de um governo que se apresenta como defensor dos mais pobres.
Na minha avaliação, a entrevista pode ter sido o golpe mais duro da campanha contra Lula. Se ela vai decretar a derrota, só as urnas vão dizer no dia 25. O que já se pode afirmar é que ela colocou o governo na defensiva na semana mais importante da eleição.
O outro lado precisa ser registrado: a defesa do governo argumenta que Roberta é uma investigada que busca benefícios com uma delação, que mudou de versão (já foi defensora fervorosa de Lula) e que não apresentou provas na entrevista. Esses argumentos também pesam, e cabe à Justiça, não à televisão, dizer quem tem razão.
O que isso tem a ver com economia
Muito. A Escola Austríaca e a chamada teoria da escolha pública explicam um fenômeno que se repete em todo governo grande: quanto mais dinheiro e poder de decisão ficam concentrados no Estado, maior o valor de ter acesso a quem decide. Liberação de verba, contrato com estatal, empréstimo de banco público, credenciamento no INSS: cada uma dessas decisões vale milhões. Onde há esse tipo de balcão, sempre aparece quem venda acesso a ele.
Não é um problema de um partido. É um problema de estrutura. O lobista não existe por causa do governo A ou B; existe porque o Estado brasileiro decide demais sobre a vida de quem produz. O empresário honesto, aquele que só quer vender um bom produto a um preço justo, compete em desvantagem com quem tem o telefone certo. Como escrevi no texto sobre o empresário segundo a Escola Austríaca, no mercado quem manda é o consumidor. No balcão do Estado, quem manda é quem tem acesso.
A melhor vacina contra escândalos assim não é apenas trocar o governante. É reduzir o tamanho do balcão: menos verbas discricionárias, menos estatais negociando contratos bilionários, regras claras e iguais para todos.
Em resumo
- Roberta Luchsinger, investigada pela PF e ex-amiga de Lulinha, disse à CNN que quer fazer delação e não vai poupar Lula nem o filho.
- Ela e Lulinha são alvo de inquéritos no STF sobre tráfico de influência; ninguém foi denunciado ou condenado até agora.
- Lula diz que nunca falou com ela e vê tentativa de tumultuar a eleição.
- Pelo momento, pela origem e pelo tema, a entrevista pode pesar muito numa eleição empatada.
- O caso mostra o problema de fundo: quanto maior o balcão do Estado, maior o mercado de quem vende acesso a ele.
Texto de análise e opinião do autor, com base em reportagens da CNN Brasil, do Metrópoles, de O Tempo e da Revista Fórum publicadas em 17 de outubro de 2026. As pessoas citadas são investigadas, e não condenadas; todos têm direito à presunção de inocência.
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