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Zona Sul deu vitória a Lula no Rio, mas a conta dos juros altos deve recair sobre a periferia

Leblon, Ipanema, Copacabana e Lagoa votaram majoritariamente em Lula. No dia seguinte, a bolsa caiu 13,88%, o dólar subiu 8,36% e os juros futuros passaram de 15% ao ano. Uma análise sobre quem ganha e quem perde com o novo cenário.

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O primeiro pregão após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva foi o pior da bolsa brasileira desde março de 2020. Nesta segunda-feira, 26 de outubro, o Ibovespa recuou 13,88%, a B3 acionou o circuit breaker pela primeira vez em seis anos e o dólar registrou a maior alta diária em 23 anos. No mesmo dia, o mapa da votação no Rio de Janeiro revelou um dado que ajuda a entender quem sai ganhando, e quem sai perdendo, com o cenário que se desenha.

O voto dos bairros mais ricos

De acordo com o levantamento por zona eleitoral publicado pelo Diário do Rio, Lula venceu nos bairros de maior renda da Zona Sul carioca:

  • Leblon, Ipanema, Copacabana e Lagoa: 56,83% para Lula e 43,17% para Flávio Bolsonaro.
  • Botafogo, Flamengo e Urca: 65,36% contra 34,64%.
  • Laranjeiras e entorno: 69,98% contra 30,02%.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, venceu na Barra da Tijuca e nas quatro zonas eleitorais de Campo Grande, bairro populoso da Zona Oeste, marcado pelo comércio de rua e por longos deslocamentos diários até o trabalho.

As razões do voto são múltiplas e não cabem numa única explicação. Mas o contraste levanta uma questão econômica relevante: quem está mais protegido, e quem está mais exposto, num país de juros altos?

Juros acima de 15% favorecem quem vive de renda

Os contratos de juros futuros com vencimento em janeiro de 2031 encerraram o dia em 15,18% ao ano, alta de 2,54 pontos percentuais em uma única sessão, segundo a CNN Brasil. Na prática, quem tem recursos aplicados passou a ter acesso a títulos públicos que pagam mais de 15% ao ano por um prazo de cinco anos.

Para quem possui patrimônio financeiro de R$ 5 milhões, R$ 10 milhões ou R$ 20 milhões, o cenário é favorável: o rendimento aumenta sem que seja necessário assumir o risco de um negócio, contratar funcionários ou investir na economia real.

Aqui cabe uma distinção frequentemente ignorada no debate público: patrimônio elevado não é sinônimo de atividade empresarial. O empresário arrisca capital, gera empregos, paga impostos e sofre diretamente com a alta dos juros. O investidor que vive de renda, especialmente o que herdou o patrimônio, tende a se beneficiar justamente quando o risco do país aumenta, porque o governo passa a pagar mais para se financiar.

Na minha avaliação, esse é um dos efeitos menos discutidos do descontrole fiscal. Não se trata de afirmar que o eleitor da Zona Sul votou pensando em rentabilidade. Trata-se de reconhecer um incentivo: um governo que gasta além do que arrecada obriga o país a pagar juros mais altos, e esses juros remuneram quem já tem capital. Nesse sentido, o Estado deficitário funciona como um mecanismo de transferência de renda de quem trabalha para quem vive de rendimentos.

Quem fica mais exposto

As famílias de baixa renda. O dólar subiu 8,36% e fechou em R$ 5,40. A desvalorização do real costuma chegar aos preços de alimentos, combustíveis e medicamentos nos meses seguintes. Beneficiários do Bolsa Família e trabalhadores que recebem o salário mínimo não dispõem de aplicações atreladas aos juros para compensar a perda. Por isso, a inflação é considerada por economistas um tributo regressivo: pesa proporcionalmente mais sobre quem ganha menos.

As empresas. Entre os índices setoriais da B3, o imobiliário caiu 28,63%, o de consumo recuou 26,14% e o de empresas de menor porte, as small caps, perdeu 26,52%. São segmentos que dependem de crédito e da renda das famílias, e o movimento indica que o mercado espera vendas mais fracas e financiamento mais caro.

Os trabalhadores. Empresas que pagam juros mais altos e vendem menos costumam reduzir investimentos e, em seguida, contratações. Se esse cenário se confirmar, a pressão recairá sobre o emprego, e o Estado tenderá a ampliar gastos com assistência, alimentando o mesmo ciclo de déficit e juros altos.

Mercado cobra sinalização, e governo ainda não respondeu

Os principais indicadores do dia:

  • Ibovespa: queda de 13,88%, aos 176.608 pontos. Na mínima do dia, o recuo passou de 17%.
  • Circuit breaker: acionado pela primeira vez desde 2020.
  • Dólar: alta de 8,36%, a R$ 5,40, depois de abrir perto de R$ 5,60.
  • Risco-país: o CDS de cinco anos subiu cerca de 26%, de 120 para perto de 152 pontos, o maior nível em 16 meses, segundo a Revista Oeste. Analistas do Morgan Stanley veem espaço para nova alta nas próximas semanas e não descartam o dólar a R$ 6 caso a pressão fiscal se intensifique.

Até o fechamento do mercado, o presidente não havia se manifestado sobre compromisso fiscal nem anunciado nomes para a equipe econômica. Analistas citados pela imprensa defendem um gesto semelhante à “Carta ao Povo Brasileiro”, de 2002, quando o próprio Lula se comprometeu com a responsabilidade fiscal e ajudou a conter a turbulência daquele ano.

A alta do risco-país significa que o custo de financiamento do Brasil no exterior aumentou. Os dados oficiais sobre o fluxo de capital estrangeiro ainda serão divulgados, mas os preços já refletem a percepção de maior risco por parte dos investidores.

IVA dual pode ser o mais alto do mundo

O cenário se soma ao calendário da reforma tributária. A alíquota de referência da CBS e do IBS, o chamado IVA dual, está em fase de definição, com a proposta prevista para chegar ao Senado até 30 de outubro. O Comitê Gestor do IBS estimou a alíquota combinada em 27,91%, acima do teto de 26,5% fixado em lei. A Hungria, país com o maior IVA padrão do mundo hoje, cobra 27%. Caso a estimativa se confirme, o Brasil passará a ter a maior alíquota do tipo no mundo.

Como profissional do mercado financeiro, minha posição é clara: a preocupação central deve ser com quem arcará com essa carga, o comerciante, o prestador de serviços, a pequena indústria e o consumidor final. Detalhei a origem e a tramitação da reforma em Reforma tributária: quem criou, quem votou e o que muda para as empresas.

O risco do caminho intervencionista

Comparações com a Venezuela costumam ser recebidas com ceticismo, e com razão: o Brasil tem Banco Central autônomo, imprensa livre, Congresso independente e câmbio flutuante. Mas a trajetória venezuelana ensina que crises dessa magnitude raramente acontecem de uma vez. Elas se constroem ao longo de anos, com expansão contínua do gasto público, uso político de estatais, controle de preços e crescente dependência da população em relação ao Estado.

O economista austríaco Ludwig von Mises descreveu o intervencionismo como um processo cumulativo: cada intervenção gera distorções que acabam justificando a seguinte. Na minha leitura, o Brasil está longe do fim dessa trajetória, mas a eleição reforçou a direção.

Uma perspectiva pessoal

Venho de família de baixa renda e estudei sempre em escola pública. Cursei Economia à noite, trabalhando durante o dia para pagar a mensalidade. Essa trajetória explica por que observo com preocupação um cenário em que quem tem patrimônio atravessará os próximos anos com rendimentos acima de 15% ao ano, enquanto quem está começando a vida na periferia tende a enfrentar menos vagas, alimentos mais caros e crédito mais restrito.

A experiência internacional mostra que a redução sustentável da pobreza depende de emprego, investimento privado, crédito acessível e inflação baixa. E todos esses fatores dependem, em última instância, de contas públicas equilibradas.

Em resumo

  1. Os bairros de maior renda da Zona Sul do Rio deram vitória a Lula; Barra da Tijuca e Campo Grande votaram em Flávio Bolsonaro.
  2. Os juros futuros passaram de 15% ao ano, cenário favorável a quem vive de renda e desfavorável a quem produz.
  3. A bolsa caiu 13,88%, o dólar subiu 8,36% e o risco-país avançou 26%, sem sinalização fiscal do governo até o fechamento.
  4. A alíquota estimada do IVA dual, de 27,91%, pode tornar-se a maior do mundo.
  5. Famílias de baixa renda, empresas e trabalhadores tendem a ser os mais afetados.

Artigo de análise e opinião do autor. Votos por zona eleitoral conforme o Diário do Rio; dados de mercado de 26 de outubro de 2026 conforme CNN Brasil e Revista Oeste; alíquota estimada pelo Comitê Gestor do IBS, conforme o portal Contábeis. Este conteúdo não é recomendação de compra ou venda de ativos.

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