Acordo Mercosul–União Europeia: vantagens e desvantagens, o que fica mais barato e como sua empresa pode exportar

Foram quase 27 anos de negociação. Desde 1º de maio de 2026, a parte comercial do acordo entre o Mercosul e a União Europeia está valendo, e os primeiros números já apareceram: de maio a setembro, as exportações brasileiras para o bloco europeu cresceram 30,7% em relação ao mesmo período de 2025. De janeiro a setembro, somaram US$ 44,17 bilhões, cerca de 20% a mais.

Mas o que muda de verdade? O que fica mais barato? Quem ganha, quem perde? E, principalmente: como a sua empresa pode aproveitar? Vamos por partes.

O que é o acordo e por que ele é “provisório”

O acordo cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, reunindo os 27 países da União Europeia e os países do Mercosul, um mercado de centenas de milhões de consumidores. Ele foi aprovado pela UE em 9 de janeiro de 2026, assinado em 17 de janeiro e aprovado por unanimidade no Senado brasileiro em 4 de março.

O “provisório” se explica assim: para não depender da aprovação dos 27 parlamentos europeus, o tratado foi dividido. A parte comercial, que só precisava do Parlamento Europeu e dos países do Mercosul, já vale. A parte política e ambiental ainda depende de ratificação país por país, e França, Polônia e Irlanda resistem. O Tribunal de Justiça da UE também analisa o texto, mas isso não suspende o comércio.

Como funcionam as tarifas

O acordo não zera tudo de uma vez. Ele trabalha com três grupos:

  • Tarifa zero imediata: cerca de 2.900 itens tiveram o imposto eliminado logo no primeiro dia, entre eles café, frutas, nozes, óleos e couros. Segundo a CNI, mais de 80% das exportações brasileiras ao bloco passaram a entrar com tarifa zero nessa primeira etapa, e cerca de 96% das exportações de máquinas brasileiras para a Europa entram sem tarifa.
  • Redução gradual: produtos sensíveis têm a tarifa reduzida ao longo de até 10 anos na UE e até 15 anos no Mercosul.
  • Cotas: alguns produtos têm um volume máximo com tarifa reduzida. A carne bovina brasileira, por exemplo, tem uma cota de 99 mil toneladas por ano para todo o Mercosul; acima disso, volta a tarifa cheia.

O que fica mais barato para o consumidor brasileiro

ProdutoTarifa atual no BrasilPrazo para zerar
Vinhos27%8 a 12 anos
Carros35%até 15 anos
Peças automotivas14% a 18%7 a 10 anos
Chocolates20%10 a 15 anos
Queijos finos (parmesão, brie)16% a 28%até 10 anos, dentro de cota
Azeite de oliva10%até 15 anos

Um alerta honesto: ninguém vai sentir isso no supermercado amanhã. A redução é gradual e, em muitos casos, longa. O efeito mais rápido tende a aparecer na variedade de produtos e marcas importadas e no custo de insumos para a indústria. Muçarela, creme de leite e leite condensado ficaram fora do acordo.

Vantagens e desvantagens para o Brasil

Vantagens:

  • Acesso preferencial a um dos mercados mais ricos do mundo para o agronegócio e para parte da indústria.
  • Máquinas, equipamentos e insumos europeus mais baratos, o que ajuda a modernizar a indústria nacional.
  • Mais concorrência e mais opções para o consumidor.
  • Regras mais estáveis, que atraem investimento estrangeiro.

Desvantagens e riscos:

  • Setores como vinhos e laticínios nacionais vão enfrentar concorrência mais forte.
  • Parte da indústria brasileira, menos produtiva que a europeia, pode perder espaço. Há economistas que alertam para o risco de o Brasil ficar só como fornecedor de commodities.
  • As cotas limitam o ganho do agro em produtos como carne, açúcar e arroz.
  • As salvaguardas permitem à UE suspender reduções se as importações subirem mais de 5% acima da média de três anos em produtos como carne, mel e açúcar. O Brasil criou mecanismo semelhante pelo Decreto 12.866.

Como a sua empresa pode exportar para a Europa

Aqui está a parte que mais interessa ao empresário. O acordo abre a porta, mas quem tem que passar por ela é você. Um roteiro prático:

  1. Descubra a NCM do seu produto e confira no cronograma do acordo se a tarifa já está zerada, se cai aos poucos ou se há cota.
  2. Habilite a empresa no Radar Siscomex, o cadastro obrigatório para operar no comércio exterior.
  3. Entenda as regras de origem. Para ter a tarifa reduzida, o produto precisa ser considerado “originário” do Mercosul, o que depende de quanto dele foi produzido aqui.
  4. Prepare a autocertificação de origem. Uma novidade importante: o próprio exportador declara a origem na fatura comercial, sem precisar de certificado emitido por terceiros. A declaração vale por 12 meses, e a empresa precisa guardar a documentação por pelo menos três anos. Durante a transição, de até três anos, os certificados tradicionais continuam aceitos. Atenção: como não há filtro externo, um erro pode custar a preferência tarifária e gerar sanções.
  5. Organize o câmbio e o financiamento. Linhas como ACC e ACE antecipam os reais da venda ao exterior com juros muito menores que os do crédito comum, porque são atreladas ao dólar. Expliquei como funcionam no guia do crédito para quem importa e exporta. E, para entender o risco do dólar, veja o que faz o dólar subir ou cair.
  6. Busque apoio. A ApexBrasil oferece programas para empresas que querem começar a exportar, e o seu banco, o seu contador e um despachante aduaneiro são parceiros essenciais nessa jornada.

E não é só para quem exporta. Quem importa máquinas, peças e insumos europeus também ganha, e precisa refazer as contas: o produto que antes era caro demais pode ter ficado competitivo.

A lente austríaca: o livre comércio enriquece os dois lados

Para a Escola Austríaca, a troca voluntária só acontece quando os dois lados ganham. Isso vale para duas pessoas na feira e vale para dois países. Quando o brasileiro compra um vinho europeu mais barato e o europeu compra o café brasileiro sem tarifa, os dois ficam mais ricos. Mises chamava isso de divisão do trabalho: cada um produz aquilo em que é mais eficiente e troca o resto.

O protecionismo faz o contrário. Ele protege alguns produtores à custa de todos os consumidores. Bastiat ridicularizou isso no século 19 com a famosa “Petição dos fabricantes de velas”, que pediam ao governo para proibir o sol, um concorrente desleal que oferecia luz de graça. Toda tarifa é, no fundo, um imposto que o consumidor paga para proteger alguém.

Por isso vejo o acordo com bons olhos, mas sem ilusão. Ele ainda é um comércio administrado: tem cotas, prazos de 15 anos, salvaguardas e exceções negociadas setor por setor. Livre comércio de verdade seria mais simples. Ainda assim, é o maior passo de abertura que o Brasil deu em décadas. E a melhor resposta à concorrência europeia não é pedir proteção ao governo: é reduzir os impostos, a burocracia e os juros que tornam a empresa brasileira menos competitiva desde a porta da fábrica.

Em resumo

  1. A parte comercial do acordo Mercosul–UE vale desde 1º de maio de 2026; as exportações brasileiras para a UE subiram 30,7% de maio a setembro.
  2. Cerca de 2.900 itens tiveram tarifa zerada de imediato; outros caem em até 10 ou 15 anos, e alguns têm cotas.
  3. Vinhos, carros, chocolates, queijos finos e azeite vão ficar mais baratos, mas aos poucos.
  4. Ganham o agro, quem exporta e quem importa insumos; setores menos competitivos sentem mais a concorrência.
  5. Para exportar: NCM, Radar Siscomex, regras de origem, autocertificação e financiamento em ACC ou ACE.

Texto de análise e opinião do autor, com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, da CNI, da Agência Senado e do BID. Prazos e tarifas variam por produto; consulte a NCM específica antes de tomar decisões.

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