O que faz o dólar subir ou cair, e por que o Banco Central deveria interferir menos

Em dezembro de 2024, o dólar passou de R$ 6 e o Banco Central vendeu bilhões de dólares das reservas para tentar segurar a cotação. Menos de dois anos depois, no dia seguinte ao primeiro turno de 2026, a moeda americana caiu mais de 4% em um único pregão e fechou perto de R$ 5. O que explica movimentos tão fortes? E quem, afinal, decide quanto vale o dólar?

Este é o primeiro texto da categoria Comércio Exterior e Câmbio, a área em que me especializei. Vou explicar o mecanismo de forma simples e, no fim, dar minha opinião sobre o papel do Banco Central.

O dólar é um preço como outro qualquer

O câmbio é o preço de uma moeda medido em outra. E, como qualquer preço, ele depende de oferta e procura. Quando entram mais dólares no Brasil do que saem, o dólar fica mais barato. Quando saem mais do que entram, ele encarece. Quatro forças movem esse fluxo:

  1. Comércio exterior: quando o Brasil exporta soja, minério e petróleo, recebe dólares. Quando importa máquinas, eletrônicos e insumos, paga em dólares. Preços altos das commodities costumam trazer mais dólares e baratear a moeda.
  2. Juros: com a Selic alta, investidores estrangeiros trazem dólares para ganhar juros aqui. Quando os juros americanos sobem, parte desse dinheiro volta para os Estados Unidos.
  3. Confiança: é o fator mais sensível. Quando o investidor teme pelas contas públicas, ele tira o dinheiro do país e o dólar dispara. Quando a confiança volta, como na reação do mercado ao primeiro turno, o dólar cai.
  4. Inflação: no longo prazo, uma moeda que perde poder de compra mais rápido que a outra tende a se desvalorizar. Um real com inflação alta vale cada vez menos, inclusive em dólar.

Dólar baixo: bom para quem importa

Com o real valorizado, comprar lá fora fica mais barato. O lojista que traz eletrônicos da China, a indústria que importa máquinas e peças, o consumidor que compra pela internet: todos pagam menos. A concorrência dos importados também ajuda a segurar a inflação aqui dentro.

O lado ruim fica com o exportador: cada dólar que ele recebe vale menos reais, e a margem encolhe. Indústrias que competem com produtos importados também sentem a pressão.

Dólar alto: bom para quem exporta

Com o real desvalorizado, o exportador recebe mais reais por cada dólar vendido, e o produto brasileiro fica mais barato lá fora. O agronegócio e a mineração costumam ganhar nesses períodos.

Mas a conta não é tão simples. O próprio exportador importa fertilizantes, máquinas e peças, que ficam mais caros. E o dólar alto se espalha pela economia: combustível, pão, remédios, eletrônicos, tudo que tem componente importado sobe. No fim, quem paga é o consumidor, com inflação.

O que o Banco Central faz, e o que ele não faz

Muita gente acredita que o Banco Central escolhe um valor para o dólar, ou que calibra o câmbio para equilibrar exportadores e importadores. Não é assim. Desde 1999, o Brasil adota o câmbio flutuante: o preço é definido pelo mercado, e o BC não tem meta para o dólar nem para a balança comercial.

O que o BC faz é intervir em momentos de turbulência, com o objetivo declarado de conter oscilações bruscas. Os principais instrumentos são:

  • Leilão à vista: vende dólares das reservas diretamente ao mercado.
  • Leilão de linha: vende dólares com compromisso de recomprá-los mais adiante.
  • Swap cambial: oferece proteção contra a alta do dólar sem entregar a moeda física. Funciona como um seguro vendido pelo BC.

Para isso, o Banco Central mantém as reservas internacionais, um colchão de mais de US$ 300 bilhões aplicado principalmente em títulos americanos. Em dezembro de 2024, com o dólar acima de R$ 6, o BC chegou a vender mais de US$ 4 bilhões em dois dias. Um detalhe curioso: como as reservas estão em dólar, quando a moeda americana sobe, elas passam a valer mais em reais, e o balanço do BC registra ganho.

O que a Escola Austríaca diz

A tradição austríaca é cética quanto a qualquer tentativa de manipular a moeda, e oferece três argumentos fortes.

1. A desvalorização não enriquece ninguém de forma duradoura. Em Ação Humana, Ludwig von Mises mostrou que a vantagem de uma moeda desvalorizada para o exportador é temporária: dura só enquanto salários e preços internos não se ajustam ao novo câmbio. Enquanto isso, o país inteiro paga mais caro pelo que importa e precisa consumir menos. Na prática, desvalorizar a moeda é uma forma disfarçada de reduzir o salário real do trabalhador.

2. Moeda forte não mata a exportação. Em artigo publicado no Mises Brasil, o economista Steve Hanke lembrou que, entre 2003 e 2011, o real se valorizou e as exportações brasileiras cresceram de forma contínua. Quando a moeda se desvalorizou com força, entre 2011 e 2015, as exportações estagnaram e depois caíram. A correlação não prova tudo, e o preço das commodities pesou muito, mas desmonta a ideia de que basta um dólar caro para exportar mais.

3. Exportar serve para importar. Como argumentou Leandro Roque, também no Mises Brasil, o objetivo final de vender ao exterior é obter moeda para comprar do exterior aquilo que produzimos mal ou caro. Um déficit na balança comercial não é necessariamente um problema: pode significar que o país está importando máquinas e investindo. O economista Frank Shostak, do Mises Institute, resume bem: um país que desvaloriza a moeda pode ficar mais rico em dólares e mais pobre em riqueza real.

Minha opinião

Defendo que o dólar esteja em consonância com o mercado. Cada intervenção do Banco Central, por mais bem-intencionada, distorce um preço que carrega informação valiosa: quando o dólar sobe, o mercado está dizendo algo sobre a confiança no país. Queimar reservas para esconder esse sinal é tratar o termômetro, não a febre.

O episódio de dezembro de 2024 é ilustrativo. O BC vendeu bilhões de dólares, e o efeito durou pouco, porque a causa da alta, a desconfiança sobre as contas públicas, continuava lá. Em outubro de 2026, o dólar caiu mais de 4% num único dia sem nenhuma venda de reservas. Bastou a expectativa de mudança na política fiscal. Isso mostra qual é a verdadeira política cambial: contas públicas equilibradas e moeda sem inflação. O resto é paliativo.

É justo reconhecer o argumento contrário. As reservas funcionaram como seguro em crises como a de 2008 e a da pandemia, quando a falta de dólares no mercado poderia ter travado o comércio exterior. Intervenções pontuais para evitar pânico têm defensores sérios. Minha crítica é ao uso frequente das reservas para segurar a cotação, que acaba premiando a irresponsabilidade fiscal.

O que o empresário pode fazer

  • Não aposte no câmbio. Ninguém acerta o dólar de forma consistente. Planeje o negócio para funcionar em diferentes cenários.
  • Proteja-se: importadores e exportadores podem usar instrumentos de proteção (hedge), como contratos a termo, para travar o câmbio de uma operação futura.
  • Olhe para os dois lados da operação: o exportador que importa insumos tem uma proteção natural; o importador que vende só no Brasil está mais exposto.

O dólar não sobe nem cai por capricho. Ele reflete a confiança do mundo no Brasil. Se quisermos um câmbio estável, o caminho não é o Banco Central gastar reservas, e sim o governo merecer essa confiança.

Este texto é análise e opinião do autor, não recomendação de investimento. As ideias dos autores citados foram resumidas com palavras próprias; consulte os originais nas referências.

Referências

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