O que é a Escola Austríaca? Mises, Hayek e Rothbard em 5 minutos (e por que Keynes erra)

Quase todos os textos deste blog citam a Escola Austríaca. Se você chegou até aqui sem saber exatamente o que ela é, este é o ponto de partida. Em cinco minutos, vou apresentar as ideias centrais, os três nomes que você precisa conhecer e o grande rival dessa escola: John Maynard Keynes, cujas ideias ainda dominam governos e universidades, inclusive no Brasil.

De onde vem o nome

A Escola Austríaca nasceu em Viena, em 1871, com o livro Princípios de Economia, de Carl Menger. O nome pegou porque seus primeiros pensadores eram austríacos. Hoje, ela não tem fronteiras: tem seguidores no mundo todo, inclusive no Brasil, onde o Instituto Mises Brasil é sua principal referência.

As cinco ideias centrais

  1. A economia é feita de pessoas, não de agregados. Não existe “a economia” decidindo algo. Existem milhões de pessoas fazendo escolhas para alcançar seus objetivos. Mises chamou isso de ação humana.
  2. O valor é subjetivo. Uma coisa vale o que vale para quem a deseja. A mesma garrafa de água vale pouco na cidade e muito no deserto.
  3. Os preços são informação. Quando o preço de algo sobe, ele avisa a todos que aquele bem ficou mais escasso, sem que ninguém precise dar uma ordem. Mexer nos preços é desligar esse sinal.
  4. O tempo tem preço. O juro existe porque preferimos ter as coisas agora a tê-las depois. Quando o governo manipula esse preço, provoca ciclos de euforia e crise.
  5. A ordem surge espontaneamente. Ninguém planejou a língua portuguesa ou o mercado de pão de uma cidade. Ainda assim, funcionam. A coordenação livre entre as pessoas produz uma ordem que nenhum planejador central conseguiria criar.

Os três nomes que você precisa conhecer

Ludwig von Mises (1881-1973) é o grande sistematizador da escola. Em Ação Humana, sua obra principal, construiu toda a teoria econômica a partir de um ponto simples: as pessoas agem com propósito. Mostrou também que, sem preços livres, é impossível calcular o que vale a pena produzir, o que explica, segundo ele, o fracasso inevitável do socialismo.

Friedrich von Hayek (1899-1992), aluno de Mises e Prêmio Nobel de Economia em 1974, aprofundou a ideia de que o conhecimento está espalhado entre milhões de pessoas, e que nenhum governo consegue reuni-lo. Em O Caminho da Servidão, alertou que o planejamento central, por mais bem-intencionado, leva à perda de liberdade.

Murray Rothbard (1926-1995), americano, levou as ideias da escola ao limite. Defendeu o Estado mínimo, criticou duramente os bancos centrais e ficou famoso pela frase “imposto é roubo”. É a ala mais radical da tradição, e também a mais provocadora.

Keynes x Hayek: o grande debate

Nos anos 1930, durante a Grande Depressão, o economista britânico John Maynard Keynes e Hayek travaram um dos debates mais famosos da história econômica. A pergunta era: o que fazer quando a economia afunda?

Keynes respondeu: o governo deve gastar. Para ele, nas crises as pessoas e as empresas param de gastar, a demanda cai e o desemprego se instala. Cabe ao Estado preencher esse vazio com gasto público, crédito barato e juros baixos, mesmo que isso gere déficit. Quando alguém lhe perguntou sobre as consequências de longo prazo, respondeu com uma frase que ficou célebre: “no longo prazo, estaremos todos mortos”.

Hayek respondeu o oposto: a crise é a ressaca de uma farra anterior de crédito barato. Os investimentos errados precisam ser liquidados para que os recursos voltem a ser usados de forma produtiva. Estimular a economia com mais gasto e mais crédito só adia o ajuste e prepara a próxima crise, maior.

Keynes venceu o debate político. Suas ideias se tornaram dominantes depois da Segunda Guerra e, em versões modernizadas, continuam na base do que ensinam as principais universidades, do que fazem a maioria dos bancos centrais e do que defendem muitos governos, especialmente os de esquerda.

O Brasil já testou a receita

Entre 2011 e 2014, o governo brasileiro adotou a chamada Nova Matriz Econômica, inspirada em ideias desenvolvimentistas e de estímulo à demanda: crédito subsidiado do BNDES para setores escolhidos, juros empurrados para baixo, desonerações seletivas e controle de preços de energia e combustíveis. A promessa era crescimento. O resultado foi inflação em alta, contas públicas deterioradas e, em 2015 e 2016, uma das piores recessões da história do país, com queda acumulada de cerca de 7% do PIB.

Para um austríaco, nada disso foi surpresa. Foi exatamente o ciclo que Mises e Hayek descreveram: crédito artificial, mau investimento, ressaca.

O que isso tem a ver com a sua empresa

Muito mais do que parece. Em 16 anos no mercado financeiro, vejo as ideias austríacas confirmadas na prática todos os dias:

  • O empresário é o verdadeiro coordenador da economia. Para os austríacos, é ele quem descobre oportunidades, assume riscos e organiza recursos. Não um ministério.
  • Crédito barato demais engana. As empresas que mais sofrem hoje com juros altos são, muitas vezes, as que se expandiram quando o dinheiro era farto. É o mau investimento descrito por Mises, como mostrei no texto sobre a Selic.
  • Preço manipulado é preço mentiroso. Quando o governo segura o preço da energia ou do dólar, a empresa planeja com base num número falso e paga a conta depois, como discuti no texto sobre o dólar.
  • O gasto público não sai de graça. Cada real gasto pelo governo sai de impostos, de dívida ou de inflação. Em todos os casos, quem paga é quem produz, como mostrei no texto sobre endividamento.

O contraponto

É honesto reconhecer o outro lado. Os economistas que seguem a tradição keynesiana argumentam que, em crises profundas, como a de 2008 ou a da pandemia, a ação rápida do governo evitou desemprego em massa e quebradeira generalizada. Criticam a Escola Austríaca por usar pouca matemática e pouca estatística, e por oferecer, segundo eles, mais diagnóstico do que solução para quem está desempregado agora.

Minha posição

Sou economista e vejo na Escola Austríaca a explicação mais fiel do que acontece no mundo real das empresas. As receitas keynesianas podem aliviar a dor no curto prazo, mas o Brasil é a prova de que o longo prazo chega, e quem está vivo para pagar a conta é o empresário, o trabalhador e a família. Afastar o país dessas ideias, e da crença de que o Estado sabe gastar melhor do que quem produz, é, na minha opinião, o primeiro passo para juros menores, mais investimento e mais liberdade.

Se você quer ir além, sugiro começar por As Seis Lições, de Mises, um livro curto e acessível baseado em palestras que ele deu na Argentina em 1959. É a melhor porta de entrada que conheço.

Este texto é análise e opinião do autor.

Para saber mais

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