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Juros na canetada: o que Keynes, Nixon e a Nova Matriz ensinam sobre a Selic a 7,5%

A ideia de baixar a Selic por decisão política é sedutora, sofisticada e antiga. Reino Unido, Estados Unidos e o próprio Brasil já a testaram. Em todos os casos, o alívio veio rápido e a conta veio maior. Uma análise sobre os limites da intervenção na economia.

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Toda geração de governantes acaba diante da mesma tentação: a de acreditar que um problema econômico complexo pode ser resolvido com uma assinatura. Nesta semana, ela voltou ao centro do debate brasileiro. Em artigo publicado em seu Substack e republicado pelo Diário do Centro do Mundo em 1º de novembro, o economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, propôs levar a Selic dos atuais 13,75% para cerca de 7,5% ao ano em 12 meses e entregar a um novo conselho político a tarefa de fixar a faixa permanente dos juros.

A proposta chegou ao radar do Palácio do Planalto. Nesta terça-feira, 3 de novembro, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, tratou de esfriar a expectativa: classificou a ideia como “incipiente”, disse que ela tem “várias deficiências” e afirmou que “não há nada nesse sentido sobre a mesa”, segundo o Times Brasil.

A resposta da Fazenda foi correta. Mas seria ingenuidade considerar o assunto encerrado. A ideia de que o Estado pode baratear o dinheiro por decreto não nasceu agora, não morre com uma entrevista e tem um patrono ilustre na história do pensamento econômico. Conhecer essa história é a melhor vacina contra repeti-la.

O patrono da ideia

John Maynard Keynes foi, sem exagero, o economista mais influente do século XX. Escrevia com elegância rara, enxergou com lucidez os erros do Tratado de Versalhes e ofereceu respostas a uma Grande Depressão que parecia não ter fim. Seria desonesto atribuir a ele tudo o que se fez em seu nome depois de sua morte, em 1946. O próprio Keynes defendia, por exemplo, que governos poupassem nos períodos de bonança, conselho que seus seguidores costumam esquecer.

Ainda assim, foi Keynes quem forneceu a base intelectual para que o Estado se sentisse autorizado a conduzir a economia pela caneta. Cinco instrumentos ajudam a entender esse legado:

  • O dinheiro barato como política de Estado. No Reino Unido, a taxa básica foi reduzida a 2% em 1932 e permaneceu nesse patamar, com breve interrupção no início da guerra, até 1951. Keynes via no juro baixo não um remédio de emergência, mas um objetivo permanente.
  • A “eutanásia do rentista”. No capítulo final da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, de 1936, Keynes defendeu reduzir os juros até o ponto em que viver da renda do capital deixasse de ser possível, e mencionou uma “socialização razoavelmente abrangente do investimento”. É o parentesco mais nítido com o debate atual.
  • O gasto financiado por dívida. Em carta aberta ao presidente Franklin Roosevelt, publicada no New York Times em 31 de dezembro de 1933, defendeu gastos públicos financiados por empréstimos. Na Teoria Geral, levou o argumento ao limite ao sugerir que até enterrar notas de dinheiro em minas abandonadas, para que a iniciativa privada as desenterrasse, seria melhor do que a inatividade.
  • A poupança compulsória. No ensaio Como pagar pela guerra, de 1940, propôs reter parte dos salários para devolvê-la após o conflito. Na prática, o Estado passaria a decidir quanto de sua própria renda cada cidadão poderia consumir.
  • Câmbio administrado e controle de capitais. Na conferência de Bretton Woods, em 1944, foi um dos arquitetos do sistema de câmbio fixo do pós-guerra, que aceitava controles sobre a circulação de capitais entre países.

Quando a teoria encontrou a realidade

No Reino Unido, as décadas seguintes ficaram conhecidas pelo ciclo “stop-go”: o governo acelerava a economia com estímulos, a inflação e o déficit externo respondiam, e vinha a freada. A libra foi desvalorizada em 1967. Em 1976, com inflação elevada e a moeda sob ataque, o país recorreu a um empréstimo de cerca de US$ 3,9 bilhões do Fundo Monetário Internacional. Naquele mesmo ano, na conferência do Partido Trabalhista, o primeiro-ministro James Callaghan fez uma das confissões mais francas da política econômica moderna: o governo acreditava que era possível gastar para sair de uma recessão, e essa opção simplesmente deixara de existir.

Nos Estados Unidos, o presidente Richard Nixon declarou-se keynesiano no início de 1971. Em 15 de agosto daquele ano, anunciou em pronunciamento nacional o congelamento de preços e salários e o fim da conversibilidade do dólar em ouro. O congelamento não conteve a inflação; apenas a represou. A década terminou em estagflação, a combinação de preços em alta e economia fraca que a teoria dominante considerava improvável. Em 1980, a inflação ao consumidor chegou a 13,5%, segundo o Bureau of Labor Statistics. Para vencer o problema, o Federal Reserve, sob Paul Volcker, elevou os juros a cerca de 20%, e o desemprego superou 10% no fim de 1982.

A lição dos dois países é a mesma, e vale ser dita com clareza: a intervenção entrega o alívio primeiro e manda a conta depois. E a conta sempre chega maior do que o alívio.

O Brasil já assistiu a esse filme duas vezes

Em 1986, o Plano Cruzado congelou preços por decreto. A popularidade do governo disparou, e as prateleiras se esvaziaram em poucos meses. Vieram as filas, o ágio e, por fim, a volta da inflação com mais força.

Entre 2011 e 2014, a chamada Nova Matriz Econômica repetiu a receita com roupagem moderna. A Selic foi reduzida a 7,25% em outubro de 2012, sob evidente pressão política; a conta de luz foi barateada por medida provisória; multiplicaram-se as desonerações seletivas e o crédito subsidiado dos bancos públicos. O desfecho é conhecido: tarifaço de energia em 2015, IPCA de 10,67% naquele ano, segundo o IBGE, Selic de volta a 14,25% e a mais profunda recessão da história brasileira.

Quem viveu aquele período atrás de uma mesa de crédito, como eu, não precisa de modelo econométrico para lembrar o que aconteceu com as empresas que tomaram dinheiro barato acreditando que ele duraria para sempre.

O preço da intervenção

Juro, câmbio, tarifa ou preço no supermercado: sempre que o Estado tenta impor por decisão política um valor que deveria refletir a realidade, as consequências seguem um roteiro previsível.

  1. Inflação. Juro artificialmente baixo e gasto financiado por dívida ampliam a demanda sem ampliar a oferta. A diferença aparece nos preços.
  2. Um imposto que ninguém votou. A inflação corrói primeiro a renda de quem não tem aplicação financeira para se proteger. É o mais regressivo dos tributos.
  3. Investimentos que só existem enquanto o dinheiro está barato. Quando o juro volta ao nível real, esses projetos quebram e levam empregos consigo.
  4. Prateleiras vazias. Preço fixado abaixo do custo faz o produto desaparecer, como o Cruzado demonstrou.
  5. Fuga de capital e real mais fraco. O investidor parte quando percebe que as regras dependem do humor político. O dólar sobe, e tudo o que é importado encarece.
  6. Crédito mais caro para todos. A mera possibilidade de interferência eleva o prêmio de risco, como mostraram os juros futuros e o risco-país nas últimas semanas.
  7. Mais dívida, mais impostos. O estímulo de hoje é a dívida de amanhã, e dívida se paga com tributos.
  8. Euforia seguida de recessão. A freada costuma ser proporcional ao exagero que a antecedeu.
  9. A economia do balcão. Quanto mais o governo decide quem recebe crédito barato ou tarifa especial, mais compensa investir em acesso a Brasília do que em servir bem ao cliente.
  10. Credibilidade perdida. A autonomia do Banco Central levou décadas para ser conquistada e foi consagrada em lei em 2021. Pode ser desfeita em uma única decisão.
  11. Uma intervenção sempre pede a próxima. Como advertiu Ludwig von Mises ainda nos anos 1920, cada intervenção produz distorções que justificam uma nova. O juro baixo exige segurar o câmbio; segurar o câmbio exige queimar reservas; queimar reservas acaba exigindo controle de capitais. A própria proposta em debate já prevê o uso das reservas, o que diz muito.

A minha leitura

Ninguém que acompanhe a economia brasileira defende juros de 13,75% como um fim em si. Eles sufocam a empresa que precisa de capital de giro, punem a família endividada e consomem uma fatia enorme do orçamento público. Reconheço também que a proposta de Lara Resende é intelectualmente sofisticada e parte de um diagnóstico que merece ser levado a sério.

Mas sofisticação teórica não altera a ordem dos fatores. O juro brasileiro é alto porque o risco de financiar o governo é alto. Reduzi-lo por decisão política, sem reduzir esse risco, é quebrar o termômetro e declarar que a febre acabou. A história do Reino Unido, dos Estados Unidos e do próprio Brasil não registra um único caso em que esse atalho tenha funcionado de forma duradoura. Os períodos de juros baixos e sustentáveis vieram sempre depois do ajuste fiscal e da credibilidade, jamais antes.

Se há uma boa notícia nesta semana, é que a Fazenda parece ter compreendido isso. Resta saber se a compreensão resistirá à pressão política dos próximos meses. Que o Copom decida com base em dados, e o governo faça a parte que lhe cabe: dar ao país uma âncora fiscal crível. É por esse caminho, e só por ele, que os juros cairão para ficar.

Em resumo

  1. A proposta de Selic a 7,5% é de André Lara Resende; a Fazenda afirmou que ela tem “várias deficiências” e não está em avaliação.
  2. A ideia de baratear o dinheiro por decisão política remonta a Keynes: juro baixo permanente, “eutanásia do rentista” e gasto financiado por dívida.
  3. Reino Unido e Estados Unidos colheram ciclos “stop-go”, socorro do FMI, congelamentos fracassados e estagflação.
  4. O Brasil viveu o mesmo no Plano Cruzado e na Nova Matriz Econômica.
  5. Juros baixos e duradouros são consequência de credibilidade fiscal, nunca de canetada.

Leia também: A conta que não fecha: uma análise técnica da proposta de Lara Resende e Keynes, o vilão da economia liberal.

Referências

  • LARA RESENDE, André. “Eu acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos”. Republicado por Diário do Centro do Mundo, 1º nov. 2026.
  • TIMES BRASIL. “Durigan diz que proposta de Lara Resende para baixar juros tem deficiências“, 3 nov. 2026.
  • KEYNES, John Maynard. A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, 1936 (capítulos 10 e 24).
  • KEYNES, John Maynard. Carta aberta ao presidente Roosevelt. The New York Times, 31 dez. 1933.
  • KEYNES, John Maynard. How to Pay for the War, 1940.
  • CALLAGHAN, James. Discurso à conferência do Partido Trabalhista, Blackpool, 28 set. 1976.
  • NIXON, Richard. Pronunciamento à nação sobre a nova política econômica, 15 ago. 1971.
  • U.S. BUREAU OF LABOR STATISTICS. Índice de Preços ao Consumidor (CPI), série histórica anual.
  • IBGE. IPCA, série histórica; BANCO CENTRAL DO BRASIL. Histórico das taxas de juros fixadas pelo Copom.
  • MISES, Ludwig von. Crítica ao Intervencionismo, 1929.
  • BRASIL. Lei Complementar nº 179, de 24 de fevereiro de 2021 (autonomia do Banco Central).

Artigo de análise e opinião do autor. Este conteúdo não é recomendação de compra ou venda de ativos.

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