“Por que o banco não aprova meu crédito?” É a pergunta que mais escuto de empresários. Na maioria das vezes, a resposta não está na vontade do gerente, e sim num número que o empresário nunca viu: o rating bancário da empresa. Neste texto, depois de 16 anos no setor bancário, explico de forma prática o que é esse rating, o que pesa nele e o que você pode fazer, a partir de hoje, para melhorá-lo.
O que é rating bancário
Rating é a nota de risco que o banco atribui à sua empresa. Ela resume a resposta a uma única pergunta: qual a chance de este cliente não pagar? Quanto melhor a nota, mais crédito a empresa consegue, com taxas menores e exigindo menos garantias.
Dois pontos que pouca gente sabe:
- Cada banco tem o seu. O rating é calculado internamente, com metodologia própria. Sua empresa pode ter uma nota ótima num banco e mediana em outro.
- Não existe uma consulta pública do rating. O que o empresário pode consultar é o seu histórico de dívidas no Sistema de Informações de Crédito do Banco Central, pelo Registrato, de graça. É uma das fontes que os bancos usam, e vale conferir se está tudo certo.
O ponto de partida: o ciclo de caixa
Antes de pedir crédito, o empresário precisa saber quanto dinheiro o negócio precisa para girar. A ferramenta para isso é o ciclo de caixa, e dá para calcular em cinco passos:
- Prazo médio de estoque: quantos dias a mercadoria fica parada até ser vendida. Exemplo: 30 dias.
- Prazo médio de recebimento: quantos dias, depois da venda, o dinheiro entra no caixa. Exemplo: 45 dias.
- Prazo médio de pagamento: quantos dias você tem para pagar o fornecedor. Exemplo: 30 dias.
- Calcule o ciclo: estoque + recebimento − pagamento. No exemplo: 30 + 45 − 30 = 45 dias. É o tempo em que o dinheiro da empresa fica “na rua”.
- Converta em reais: multiplique o custo médio diário da operação pelo ciclo. Se a empresa gasta R$ 10 mil por dia para operar, precisa de cerca de R$ 450 mil de capital de giro para cobrir esses 45 dias.
Esse é o dinheiro que a empresa precisa ter, seja próprio, seja emprestado. E cada dia a menos no ciclo é dinheiro que você não precisa pedir ao banco: encurtar o prazo de recebimento ou alongar o de pagamento costuma valer mais do que qualquer negociação de taxa.
Crédito de curto prazo x crédito de longo prazo
Um dos erros mais comuns que vejo é usar o tipo errado de crédito. A regra é simples: o prazo da dívida deve acompanhar o prazo do retorno.
- Curto prazo (capital de giro, antecipação de recebíveis, conta garantida): serve para cobrir o ciclo de caixa, o intervalo entre pagar o fornecedor e receber do cliente. O dinheiro entra e sai em semanas ou meses.
- Longo prazo (financiamento de máquinas, equipamentos, imóveis, expansão): serve para investimentos que se pagam ao longo de anos. A parcela deve caber no que o próprio investimento gera de resultado.
Comprar uma máquina com capital de giro de 12 meses, por exemplo, sufoca o caixa: a parcela vence antes de a máquina começar a se pagar. E rolar capital de giro sem parar, mês após mês, é sinal de que o problema não é falta de crédito, e sim um ciclo de caixa desajustado.
Oito atitudes que melhoram o rating da sua empresa
Cada banco tem seus critérios, mas alguns fatores pesam em praticamente todos. Estes são os que você controla:
1. Pague tudo em dia, sem exceção. É o fator mais importante. Um atraso, mesmo pequeno, aparece no histórico e pesa por muito tempo. Isso vale para empréstimos, mas também para fornecedores, impostos e contas de consumo, que aparecem em bases de consulta do mercado.
2. Mantenha o balanço e o balancete atualizados. O balanço patrimonial mostra o que a empresa tem (bens, dinheiro, valores a receber) e o que deve. O balancete é uma versão parcial, geralmente mensal ou trimestral, que mostra a situação mais recente. Uma empresa com contabilidade organizada e atualizada transmite confiança; uma que demora semanas para entregar documentos, o contrário.
3. Cuide da DRE. A Demonstração do Resultado do Exercício mostra se a empresa dá lucro ou prejuízo: quanto faturou, quanto gastou e o que sobrou. É nela que o banco vê se o negócio gera resultado suficiente para pagar a dívida. Faturamento alto com margem negativa não convence ninguém.
4. Centralize a folha de pagamento. Pagar os funcionários pelo banco onde você pede crédito mostra vínculo, gera relacionamento e dá ao banco visibilidade sobre a operação da empresa.
5. Concentre o movimento financeiro. Quanto maior a fatia do faturamento que passa pelo banco, recebimentos, cobranças, maquininhas de cartão, pagamentos a fornecedores, mais o banco conhece a empresa e mais confortável fica para emprestar. Empresas que espalham o movimento por cinco bancos costumam ter relacionamento raso com todos.
6. Compartilhe dados pelo Open Finance. Pelo Open Finance, a empresa pode autorizar que um banco veja suas informações financeiras em outras instituições, sempre com consentimento e prazo definidos. Isso permite ao banco enxergar o movimento real do negócio, mesmo que ele não passe todo por ali, e pode melhorar a análise de crédito.
7. Separe o dinheiro da empresa do dinheiro da família. Como escrevi no texto sobre endividamento, misturar as contas impede que você, e o banco, saibam se o negócio dá lucro. Defina um pró-labore e respeite-o.
8. Seja transparente. Omitir dívidas em outros bancos não funciona: elas aparecem nas consultas. A omissão pesa mais contra a empresa do que a própria dívida, porque abala a confiança, que é a base de qualquer crédito.
O que derruba o rating
- Atrasos e restrições no nome da empresa ou dos sócios.
- Endividamento alto em relação ao faturamento.
- Uso constante do cheque especial ou da conta garantida no limite.
- Prejuízo recorrente na DRE.
- Contabilidade desatualizada ou informações que não batem.
O crédito é consequência
A lição mais importante que aprendi do outro lado da mesa é esta: o crédito não é o ponto de partida, é a consequência de uma empresa bem organizada. Quem conhece o próprio ciclo de caixa, paga em dia, mantém a contabilidade em ordem e constrói relacionamento com o banco raramente tem dificuldade para conseguir dinheiro quando precisa, e consegue a taxas melhores.
Num país de juros altos, como mostrei no texto sobre a Selic, cada ponto de taxa economizado vai direto para o lucro. E o caminho para pagar menos começa dentro da própria empresa.
Este texto tem caráter informativo e reflete a experiência do autor no mercado. Critérios de crédito variam entre instituições. Não é recomendação de contratação de produto financeiro.
Links úteis
- Registrato (Banco Central): consulte gratuitamente o histórico de dívidas da sua empresa e dos sócios
- Open Finance Brasil: entenda como funciona o compartilhamento de dados
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