O mercado votou na segunda-feira: o que a bolsa recorde diz sobre o primeiro turno

No domingo, 4 de outubro, o Brasil foi às urnas. Na segunda-feira, foi a vez do mercado votar. Com Flávio Bolsonaro (PL) terminando o primeiro turno à frente de Lula (PT), por cerca de 47% a 45% dos votos válidos, o Ibovespa fechou em alta de 7,7%, a maior desde 2020, e renovou a máxima histórica: encerrou em quase 207 mil pontos, depois de tocar os 209 mil durante o pregão. O dólar caiu mais de 4% e fechou perto de R$ 5,00.

A eleição não acabou: o segundo turno está marcado para 25 de outubro. Mas a reação dos preços diz muito sobre o que investidores, dentro e fora do país, esperam do próximo governo. E vale entender o porquê.

O que o mercado está precificando

A pauta econômica da direita é mais confortável para o mercado por um motivo central: ela fala em corte de gastos. E, no Brasil de hoje, o gasto público é a principal fonte do risco que encarece o dinheiro de todo mundo.

Quando o governo gasta mais do que arrecada, precisa se financiar emitindo dívida. Quem compra esses títulos exige um prêmio maior para emprestar por prazos longos, porque teme que, lá na frente, a conta seja paga com inflação ou com mais impostos. É esse prêmio que aparece nos juros futuros de longo prazo, a parte da curva que o Banco Central não controla diretamente e que serve de base para financiamentos de empresas, imobiliário e infraestrutura.

A leitura do mercado na segunda-feira foi simples: um governo comprometido com controle de gastos tende a reduzir esse prêmio. Juros longos mais baixos valorizam as empresas na bolsa, porque o lucro futuro passa a valer mais no presente, e atraem capital estrangeiro, o que derruba o dólar. Não por acaso, bancos, Petrobras e a própria B3 subiram mais de 10% no dia.

A lente austríaca: o preço do tempo depende do Estado

No texto anterior, escrevi que o juro é o preço do tempo. Pela ótica da Escola Austríaca, um governo que consome poupança demais compete com as empresas pelos mesmos recursos e empurra esse preço para cima. Cortar gastos não é só uma questão contábil: é devolver à economia privada a poupança que hoje financia o déficit.

Na minha opinião, é isso que o mercado está celebrando: não um nome, mas a possibilidade de o Estado sair do caminho dos juros. Se esse compromisso se confirmar em medidas concretas, abre-se espaço para algo que o Brasil persegue há décadas: juros estruturalmente mais baixos.

E o Banco Central nessa história?

Aqui entra um detalhe que muita gente esquece: desde 2021, o Banco Central é autônomo por lei. Seu presidente tem mandato fixo, que não coincide com o do presidente da República. Gabriel Galípolo, indicado por Lula, comanda a instituição desde janeiro de 2025 e tem mandato até o fim de 2028. Ou seja: seja quem for eleito, o próximo governo vai conviver pelo menos dois anos com ele.

Quando foi indicado, Galípolo enfrentou desconfiança. Ele vinha do Ministério da Fazenda de Fernando Haddad e era visto como alguém próximo do projeto econômico do governo. Na prática, porém, conduziu o Banco Central com postura técnica: levou a Selic a 15% em 2025, contrariando o desejo explícito de quem o indicou, e só começou a cortar os juros quando a inflação deu sinais de ceder. Mesmo sob críticas públicas do próprio presidente Lula aos juros altos, manteve as decisões no terreno técnico.

Na minha avaliação, isso é uma boa notícia para qualquer cenário. Um Banco Central previsível e independente é o que permite que um eventual ajuste fiscal se traduza, de fato, em juros menores. A autonomia funciona exatamente quando o presidente da instituição não precisa agradar ao governo de turno.

O que pode dar errado

Mercado não é oráculo, e a euforia de um dia não é garantia de nada. Três riscos merecem atenção:

  • O segundo turno está aberto. A diferença do primeiro turno foi de pouco mais de dois pontos, e o resultado de 25 de outubro pode reverter parte do movimento.
  • Discurso não é orçamento. Corte de gastos é fácil de prometer em campanha e difícil de aprovar no Congresso. Se as medidas não vierem, o prêmio nos juros longos volta.
  • A inflação ainda está acima da meta. Mesmo com o fiscal arrumado, o Banco Central não vai acelerar cortes sem que os preços cooperem.

O recado da segunda-feira foi claro: o mercado acredita que o equilíbrio das contas públicas é o caminho para juros menores, e está disposto a pagar por isso antecipadamente. Cabe agora a quem vencer em 25 de outubro transformar expectativa em política econômica. Porque, no fim, quem paga a conta de juros altos não é a bolsa: é a empresa que precisa de crédito para girar.

Este texto é análise e opinião do autor, não recomendação de investimento. Os percentuais do primeiro turno são aproximados; os números oficiais completos estão no portal do TSE.

Fontes

Deixe um comentário